Para Lyra, minha estrela e minha ruína,

Eu escrevo estas palavras com as mãos que já foram suas. Mãos que um dia seguraram as suas com ternura, que tocaram sua pele ao luar, que afastaram o cabelo do seu rosto enquanto sussurrava seus segredos para mim. Mãos que hoje só sabem carregar sangue e poeira.

Nós chegamos a Rathess como conquistadores. Era para ser o início de uma nova era, uma era que nós juramos construir, uma era que você sonhou. Lembro de cada palavra que saiu dos seus lábios naquela manhã, a certeza na sua voz, a fé de que estávamos fazendo o certo. Você sempre teve uma maneira de transformar as mentiras do mundo em verdades que eu queria acreditar. E eu acreditei.

Acreditei tanto que matei por você.

Matei aqueles que um dia chamei de irmãos. A lâmina que um dia protegia agora ceifava. O fogo que deveria aquecer agora reduzia tudo a cinzas. E quando a poeira baixou, quando as muralhas de Rathess se ergueram ao nosso redor, finalmente compreendi o que havíamos feito. Mas era tarde.

Os Sidereais nos esperavam. Eles nos enganaram. Eles enganaram você.

Eles nos prometeram que estávamos salvando a Criação, que estávamos quebrando um ciclo de tirania… mas eram eles que moldavam esse ciclo desde o princípio. Como tolos, seguimos o caminho que eles traçaram. Como tolos, lutamos suas guerras por eles.

E então, eles nos traíram.

Lutamos, mas não havia esperança. Você caiu primeiro. Vi sua luz se apagar diante de mim, vi o sangue quente encharcar seu manto. Por um instante, o tempo parou. O mundo se calou. E tudo que existia era você.

Eu poderia ter lutado. Eu deveria ter lutado. Mas para quê? Para quem?

Sem você, não há Criação. Sem você, não há nada.

Então eu caí de joelhos, joguei minha espada aos pés dos assassinos e pedi apenas uma coisa: que me deixassem ser enterrado ao seu lado.

E agora estou aqui. Segurando sua mão pela última vez. O céu sobre Rathess é vermelho, como se o próprio Sol chorasse por nós. Talvez chore por mim, por ter traído tudo o que um dia fui. Ou talvez chore por você, por ter acreditado que poderíamos mudar algo neste mundo podre.

Minha amada, minha estrela, minha maldição…

Eu daria tudo para voltar no tempo. Para te segurar mais uma vez, para dizer que nós já éramos tudo que precisávamos ser. Que a Criação não precisava ser salva, apenas vivida. Mas agora é tarde demais.

Quando esta carta for encontrada, eu serei pó ao seu lado. E talvez, em outra vida, em outra Criação, possamos nos encontrar sem peso, sem culpa. Apenas nós dois, como deveria ter sido desde o começo.

Durma bem, minha amada.

Albaio, seu guerreiro, agora e sempre.