Prólogo da Jornada de Ubiraci
Capítulo 1: A Rebelião dos Escravos
O cheiro de sangue ainda impregnava as pedras da cidade dos morcegos, mesmo depois de meio século. A brisa carregava um fedor metálico, reminiscente dos dias de oferendas ao Sol Faminto. Ubiraci avançava com passos cuidadosos, sua forma lupina camuflada nas sombras da noite. Ele não era um invasor, mas um observador.
A nova geração dos Morcegos de Sangue havia se reerguido, mas ainda mancava nas cinzas do passado. Havia novos escravos, jovens e velhos acorrentados às pirâmides inacabadas, mas alguns falavam de um tempo diferente — um tempo em que suas correntes foram quebradas, e o terror mudou de lado.
Eles falavam de um nome proibido.
O Lunar ouviu atentamente. Os mais velhos contavam histórias distorcidas, murmurando lendas que misturavam verdade e superstição. Diziam que um homem brilhou como o próprio sol, reuniu os escravos e esmagou os chiropteranos como um furacão de trovões e lâminas. Diziam que ele os libertou, mas atraiu a fúria do Reino, trazendo a Wyld Hunt para caçá-los como animais selvagens.
— “A rebelião não durou,” murmurou um velho acorrentado a um bloco de pedra. Seu rosto era seco como couro gasto pelo sol. “Os caçadores mataram a maioria, e aqueles que sobreviveram fugiram para as entranhas da floresta.”
Ubiraci olhou nos olhos do homem.
— “Eu sinto sua perda… Sabe dizer para onde foram?”
O escravo hesitou. Havia medo no olhar dele.
— “Não sei… Mas conheço alguém que pode saber.”
E assim, o caminho de Ubiraci foi traçado.
O Caminho para os Sobreviventes
A floresta fechava-se ao redor de Ubiraci conforme ele avançava. A trilha era antiga e sinuosa, usada por aqueles que fugiam, e não por aqueles que buscavam.
O silêncio era profundo, cortado apenas pelo farfalhar das folhas e pelo canto distante de corujas noturnas. Mas ele sabia que estava sendo observado. Espíritos menores se esgueiravam entre os troncos, espreitando o forasteiro com desconfiança.
Foram dias de caminhada antes que ele encontrasse os sobreviventes.
A vila estava bem escondida, esculpida entre as árvores, com pequenas casas feitas de barro e madeira, elevadas sobre estacas para evitar os predadores da selva. O fogo queimava baixo, o suficiente para cozinhar, mas não para ser visto a grandes distâncias. Era um assentamento de refugiados, de sobreviventes.
Ubiraci não entrou às escondidas. Ele não precisava.
Foi visto antes mesmo de cruzar a clareira.
— “Você caminha sozinho?” A voz era rouca, cansada.
O Lunar parou. Um velho se apoiava em um cajado de ossos e madeira, seus olhos fundos e seus braços cobertos por tatuagens rituais. Atrás dele, jovens guerreiros, com lanças afiadas e olhares desconfiados, observavam. Eram os filhos da rebelião.
— “Sim, ancião. Busco aprender,” Ubiraci respondeu, erguendo as mãos num gesto de paz. “Aprender sobre o homem que lhe trouxe a liberdade.”
Os sobreviventes trocaram olhares. Alguns tinham expressões duras, outros pareciam inquietos. Mas o velho apenas sorriu.
— “Então, sente-se. Você tem muito para ouvir.”
A História Perdida
Eles se sentaram ao redor da fogueira, e as chamas dançaram, projetando sombras alongadas na madeira das casas.
— “Nós éramos nada,” começou o velho. “Pecadores, segundo os morcegos. Servos indignos. Sangue para o Sol Faminto.”
Ele respirou fundo, os olhos mirando as estrelas encobertas pelas folhas.
— “Então ele veio.”
O Guerreiro do Sol.
— “Ele não veio como um libertador. Veio como um homem que queria sobreviver. Mas quando viu nossa dor, algo dentro dele mudou.”
Ubiraci prestava atenção em cada detalhe.
— “Ele nos treinou. Nos ensinou a lutar. Nos deu armas roubadas dos próprios morcegos. E então, um dia, nos disse: ‘Hoje, vocês quebram suas correntes ou morrem tentando’.”
O silêncio caiu sobre a vila.
— “E quebramos.”
A batalha foi relatada como um conto épico. Os escravos se ergueram e atacaram seus mestres com fúria contida por gerações. Filial Wisdom liderava o ataque, um furacão de lâminas douradas e raios negros, derrubando os guerreiros chiropteranos como folhas ao vento.
Mas a vitória não foi eterna.
— “O Reino nos notou. A Wyld Hunt veio como uma maldição. Cinco Filhos do Dragão lideravam tropas de apenas vinte homens cada, com sua magia dando ainda mais força aos seus guerreiros. Apesar de nossos números serem maiores, eles eram muito poderosos.”
Os mais velhos abaixaram a cabeça.
— “Nós lutamos com tudo que tínhamos, mas não éramos páreo para o exército do Império. Perdemos muitos. Filial nos ordenou fugir. Mas ele ficou. Lutou sozinho contra aqueles que não conseguimos derrotar. Dizem que ceifou uma dúzia antes de cair. Mas quando a poeira baixou… ele não estava entre os mortos.”
Ubiraci estreitou os olhos.
— “Algo me diz que a história dele não termina aí.”
O velho assentiu lentamente.
— “Sim. Sabemos que ele sobreviveu, mas nunca mais o vimos. O último rastro que ouvimos foi um sussurro… um sussurro que ele seguiu para o coração da selva.”
A fogueira crepitou.
— “Para onde?”
O velho respirou fundo.
— “A vitória não foi permanente, sabe? Mas nunca nos sentimos tão bem quanto quando estávamos com ele. Depois de fugirmos e deixarmos a poeira baixar, procuramos por toda a floresta por sinais, mas não encontramos nada. Se há alguma pista, só os deuses sabem… e eles não falam conosco.
Capítulo 2: A Jornada pela Floresta e o Encontro com os Ecos da Caçada
A floresta era densa e antiga, carregada de murmúrios do passado. Ubiraci se movia com cautela, os olhos atentos às sombras entre as árvores retorcidas. Cada passo afundava na terra úmida, e o vento sibilava histórias esquecidas.
Agora ele sabia que Filial Wisdom havia sobrevivido à rebelião, mas não sem um preço.
Os rastros do Solar ainda estavam gravados na selva — não nas folhas ou na lama, mas nos deuses esquecidos e nas cicatrizes deixadas pela batalha que o perseguiu até as profundezas do Leste.
Ele precisava seguir esse caminho. Mas, para isso, precisava de respostas.
O Julgamento do Guardião
A primeira parada de Ubiraci não foi por escolha própria.
O ar se tornou pesado, o cheiro de resina e ferro pairando como uma advertência. As raízes das árvores se erguiam como garras e, entre elas, uma figura antiga se projetava do tronco de uma imensa figueira de seiva escura.
Hak-Thul, o Guardião Esquecido.
Seus olhos eram fendas âmbar, a pele rachada como casca de árvore petrificada. Ele observou Ubiraci sem expressão, mas sua presença emanava autoridade.
— “Você pisa sobre um campo de guerra.” A voz era profunda, ressonante, como o ranger da madeira sob o peso do tempo.
Ubiraci parou, sentindo a selva se fechar ao seu redor.
— “Não tenho intenção de desrespeitar os guerreiros que lutaram aqui, nem seus domínios, Guardião. Busco os rastros da tempestade dourada.”
Os olhos do espírito brilharam.
— “Então você busca um fantasma. Filial Wisdom foi o fogo que incendiou esse solo. Ele trouxe guerra, sangue e promessas… mas seu final não foi como desejava.”
Ubiraci observou o espírito longamente, mantendo os olhos diretamente nos dele, mas de uma forma respeitosa, sem desafiar sua autoridade. A dúvida fez com que o guardião hesitasse. Mantendo a voz firme, Ubiraci falou novamente.
— “Não busco por ele, mas pelos testemunhos de sua história. Conte-me o que aconteceu.”
O espírito o encarou por um longo instante antes de se afastar da figueira. Um murmúrio se ergueu no vento, e as folhas ao redor começaram a se retorcer, projetando sombras vivas no chão, uma encenação dos eventos passados.
O Eco da Batalha
A Wyld Hunt veio como uma onda implacável.
Cinco Dragon-Blooded lideravam o ataque, seus exércitos compostos por monges guerreiros, exorcistas e caçadores de anátema. Cada um era um prodígio em sua arte — mestres da lâmina, da magia, do fogo e da terra.
Mas Filial não estava sozinho.
Ele reuniu aliados improváveis: espíritos menores da floresta, elementais do vento e da terra, e até mesmo alguns poucos deuses locais que desprezavam o Reino.
Eles travaram guerra entre as árvores e os rios, transformando a paisagem antes pacata em um campo de batalha como há muito tempo não se via.
O espírito apontou para as sombras dançantes.
— “Filial Wisdom era um trovão sobre duas pernas. Cada golpe de sua lâmina abria crateras, cada investida dispersava dezenas de guerreiros. Ele queimava como o próprio Sol, e, por um momento, parecia invencível.”
As sombras se moviam como uma dança furiosa. Os ataques de Filial eram rápidos como o vento e cortavam como lâminas forjadas no coração de um relâmpago.
Mas então, vieram os Dragões.
A Derrota de Filial Wisdom
O líder da Wyld Hunt era um Imaculado do Aspecto de Fogo. Sua lança flamejante cortava a floresta, deixando apenas cinzas em seu rastro.
O Aspecto da Terra ergueu muralhas para cercar os aliados de Filial, isolando-os. O Aspecto do Ar desceu dos céus, rasgando o vento como uma águia de tempestade.
Os caçadores sabiam que não poderiam vencê-lo individualmente, então fizeram o que sempre faziam: atacaram como um só.
Hak-Thul continuou:
— “Eles o esmagaram sob sua própria glória. Cada golpe que ele desferia custava algo. A batalha não durou uma noite, nem duas… mas sete. Durante sete dias, Filial lutou, sem descanso, sem misericórdia.”
No final do sétimo dia, seus aliados estavam mortos.
Os elementais foram dispersos. Os deuses menores, derrotados ou forçados a se submeter novamente ao Reino.
A expressão de Ubiraci dizia “E Filial?”, e o espírito respondeu:
— “Ele não morreu. Isso é o que os caçadores não entenderam.”
Ubiraci observou enquanto as sombras mostravam a última cena da batalha: um homem sozinho, de joelhos, com sua lâmina cravada na terra, cercado por seus inimigos.
— “O que aconteceu?” murmurou Ubiraci.
Hak-Thul suspirou.
— “O que acontece quando um predador está encurralado?”
Ubiraci pensou por um momento antes de responder.
— “Ele encontra um novo caminho.”
O espírito assentiu.
— “E foi isso que ele fez. Ele desapareceu na escuridão da selva, e a Wyld Hunt nunca encontrou seu corpo. Seus caçadores foram mortos, um por um, nas semanas seguintes, mas não por exércitos. Não por batalhões.”
A sombra de Filial na ilusão se ergueu, ainda sangrando, e entrou na escuridão da floresta.
— “Ele caminhou sozinho. Para onde? Não sei. Mas o rastro que ele seguiu…”
Hak-Thul olhou para o horizonte, para as montanhas ocultas pelo nevoeiro.
— “Leva para onde os deuses caíram. Para onde os mortos caminham entre os vivos.”
O coração de Ubiraci acelerou.
Ele já sabia a resposta.
Mas ouvir o espírito dizer Rathess era diferente.
Era um presságio.
O Preço da Informação
Hak-Thul se voltou para Ubiraci.
— “Agora, você deve pagar pelo conhecimento que recebeu.”
Ubiraci não hesitou.
— “O que deseja?”
O espírito sorriu, um gesto antigo e predatório.
— “A Wyld Hunt pode ter ido embora, mas o que restou dela ainda amaldiçoa essa terra. Há um caçador, o último dos que perseguiram Filial, ainda preso nesta floresta. Você irá libertá-lo… ou matá-lo. A escolha é sua.”
Ubiraci sentiu o peso da decisão.
Ele não gostava da ideia de eliminar um homem por causa de um erro do passado. Mas também sabia que deixar uma força de destruição no mundo poderia ser perigoso.
Ele teria que encontrar esse último caçador.
E então, escolheria seu destino.
Capítulo 3: O Caminho até Rathess
A Corte da Madeira Antiga
A floresta não sussurrava naquela parte do mundo — ela escutava.
Ubiraci sentia os olhos invisíveis sobre ele.
Desde que pisara nos domínios da Corte da Madeira Antiga, cada folha que caía, cada galho que se partia, carregava um julgamento silencioso. Esses elementais eram antigos, mais velhos que qualquer império mortal. Eles não seguiam leis humanas ou juramentos celestiais. Eram as raízes que sustentavam o próprio mundo. Não era um lugar que o Lunar iria, se não fosse alí que ele encontraria o aquele de quem deveria escolher o destino.
O Lunar encontra um círculo de árvores perfeito, formado por troncos esculpidos pelo tempo e entrelaçados por vinhas vivas. No centro, preso por raízes que subiam por seus braços e pernas como serpentes de madeira, estava o Dragon-Blooded.
O último caçador da Wyld Hunt. Seus olhos estavam cansados, mas ainda vivos.Ubiraci aproximou-se com cautela. Ubiraci pega se cantil de tecido-couro e serve um pouco de água ao homem. Assim que acabara de fazê-lo, vultos aparecem ao seu redor. A corte já o esperava.
E então as vozes dos elementais ecoaram.
O líder da corte emergiu de um tronco curvado pelo tempo, sua pele feita de casca esculpida e seus olhos brilhando como seiva dourada.
— “Este homem pertence a nós. Ele queimou nossas florestas. Ele sangrou nossa terra. Por que deveríamos permitir-lhe qualquer misericórdia?”
Ubiraci olhou para o prisioneiro.
Mesmo após anos de cativeiro, sua presença ainda era forte. Havia algo nele que nem o tempo, nem os elementais, puderam apagar.
Então, Ubiraci sorriu.
— “Deixe-me contar uma história.”
Os elementais hesitaram. Eles eram antigos, mas ainda eram seres da Madeira. E os da Madeira sempre gostaram de histórias.
— “Era uma vez, um valoroso guerreiro que lutava por um mundo mais justo. Ele foi ensiado desde muito jovem quem eram os inimigos que ele deveria combater, e como deveria fazê-lo. No entanto, passou a maior parte de sua vida sem nunca encontrar este inimigo.
Num determinado momento, este inimigo finalmente apareceu, e não havia dúvidas na mente do guerreiro do que precisava ser feito. Perseguiu o inimigo, acreditando que sua** **vitória, apesar dos custos, traria equilíbrio para Criação.”
O líder da corte inclinou a cabeça para frente.
Ubiraci continuou.
— “Mas então, veio o confronto e o guerreiro, e seus companheiros, lutaram com tudo que tinham, sem medir esforços ou consequências, como foram ensinados a fazer. Então, eles venceram o inimigo, mas ainda assim não parecia uma vitória. Para o guerreiro, ele perdeu. E quando perdeu, percebeu que o equilíbrio que buscava não foi alcançado, e nunca existiu. Ele percebeu que antes não via o mundo, apenas seguia ordens, mas agora ele podia ver e enxergava com muito mais clareza. O soldado foi aprisionado por consequência de seus atos, mas o homem havia se libertado.”
O silêncio dominou a clareira.
Os olhos do Dragon-Blooded estavam fixos no Lunar. Algo naquelas palavras o atingiu profundamente.
Ubiraci mantém a palavra, apesar de já ter terminado a história.
— “Vocês prenderam aquele que acreditavam ser o homem que destruiu sua floresta,” Ubiraci disse aos elementais. “Porém aquele que cometeu tais atos não mais existe. Ele não é mais um soldado. Não é mais um caçador. Ele é um homem sem destino. Este homem não é mais a ameaça que já foi, e por tal motivo, peço que o liberte.”
Os espíritos se entreolharam. O líder da corte suspirou, suas folhas tremulando.
— “Mesmo que o que diz seja verdade, Lunar. Muito foi perdido e compensações ainda são necessárias. O que você oferece?”
O Lunar ponderou um pouco, e então sorriu.
— “Histórias. Para seus jovens elementais, os que nasceram depois da guerra. Contos sobre o mundo, sobre o que se perdeu e sobre o que pode ser encontrado. Posso contar sobre reinos que florescem, sobre espíritos que desafiaram seus destinos. Contarei para que nunca esqueçam… mas para que também não fiquem presos ao passado.”
As árvores rangiam, como se a floresta discutisse entre si.
Então, o líder assentiu.
— “Assim será.”
As raízes se desfizeram.
O Dragon-Blooded caiu de joelhos, respirando fundo pela primeira vez em anos.
Ele olhou para Ubiraci, confuso.
— “Você… por quê?”
O Lunar apenas sorriu.
— “Por que você já sofreu mais do que qualquer ser deveria sofrer? Vem. Vamos sair daqui primeiro, depois falamos de filosofia.”
A Caminhada dos Dois Exaltados
Os dois viajaram juntos pelos próximos dias.
Foi um silêncio estranho no início.
O Dragon-Blooded não perguntava nada, apenas caminhava ao lado do Lunar, sentindo a liberdade como algo novo e incômodo. Ubiraci também não forçava palavras. Ele sabia que certos fardos precisavam ser carregados sozinhos antes que alguém quisesse dividi-los.
Mas, aos poucos, o silêncio se quebrou.
Eles falavam de coisas pequenas no começo. Sobre o clima. Sobre os rios. Sobre os caminhos.
Até que, uma noite, à beira de uma fogueira pequena, o Imaculado finalmente perguntou:
— “O que você acredita?”
Ubiraci ergueu uma sobrancelha.
— “Em muitas coisas. Você vai precisar ser mais específico.”
O Dragon-Blooded olhou para o fogo, pensativo.
— “Eu passei a vida acreditando que os Solares eram monstros. Criaturas de destruição. Eu vi o que Filial Wisdom fez. E então… então fui derrotado. Abandonado. O tempo passou, e agora, um Anátema me liberta sem pedir nada em troca.”
Ele olhou diretamente para o Lunar.
— “Por quê?”
Ubiraci suspirou.
— “Há muitos motivos. Porque você não é só a espada que empunhou, e eu não sou só a luz da lua que carrego. Há também o que já lhe disse, sobre você ter sofrido demais. Acima de tudo, sei que o uso da violência não resolverá os males da Criação.”
O Imaculado permaneceu em silêncio. Então após algum tempo Ubiraci continuou.
— “O mundo quer nos dividir em inimigos e aliados, certo e errado. O que não dizem a vocês, é que existe muito mais entre esses estremos, que existe o caminho do meio. Além disto, às vezes o que precisamos fazer é algo que não faz sentido neste mundo que apresentam a vocês. Há momentos em que precisamos estender a mão, em vez de golpear com a espada. A grande sabedoria está em saber reconhecer quando é o momento agir e qual a forma correta para cada situação, mas esta sabedoria só vem quando ponderamos as situações por nós mesmos.”
Os olhos do Dragon-Blooded se perderam no fogo.
Ele não esperava essa resposta.
O Adeus
Na manhã seguinte, eles se separaram.
O Dragon-Blooded ajeitou o manto sujo sobre os ombros e olhou para Ubiraci uma última vez.
— “Não faz sentido.”
Ubiraci riu.
— “Eu ouço isso com uma frequência muito maior do que você poderia imaginar. Mas é uma boa história, não? Se um dia conseguir ver o sentido que vejo nela, mesmo que ainda não concorde, gostaria de conversar novamente com você.”
O Dragon-Blooded respirou fundo e assentiu.
— “Eu… agradeço.”
Ele se virou e partiu sem olhar para trás, mas Ubiraci sabia que ele não estava mais seguindo ordens. Agora, ele tinha que descobrir seu próprio caminho, e ele não era o único.
O Caminho até Rathess
Ubiraci voltou ao seu próprio destino.
Ele ainda precisava saber se Rathess era seguro.
A jornada foi solitária. O mundo ficou mais silencioso à medida que ele se aproximava do desconhecido.
A floresta começou a mudar. As árvores pareciam antigas demais, como se tivessem visto algo que não deveriam. As pedras tinham símbolos desgastados pelo tempo, mas ainda reconhecíveis.
E então, ele viu.
Uma ruína, esquecida no tempo.
Gravado nela, um nome que ninguém mais ousava pronunciar.
Rathess.
O coração de Ubiraci bateu forte.
Ele já sabia o que precisava saber.
Filial Wisdom veio aqui, e ele nunca mais foi o mesmo.
Ubiraci olhou para o horizonte.
Então, ele se virou e partiu.
Havia uma história a ser contada.
O Encontro com os Exaltados
Quando finalmente encontrou os outros Exaltados, eles o esperavam ao redor de uma fogueira.
Ele se sentou.
E então, contou a história.
Contou sobre a esperança e o desejo de mudança da rebelião.
Sobre o medo e a dor da Wyld Hunt.
Sobre o Imaculado perdido que, ao quebrar suas correntes mentais, poderia finalmente se encontrar.
Sobre o Solar que desafiou os Dragões, mas por sua inconsequência, o fez às custas de muitas mortes e gerando uma ferida profunda na região.
E sobre o caminho que levava até onde os deuses caíram.
Quando terminou, o silêncio caiu sobre eles.
Até que alguém falou.
— “Então, Filial Wisdom foi para Rathess?”
Ubiraci assentiu.
— “Sim. Ele encontrou algo lá.”
Os Exaltados se entreolharam.
Então, um deles murmurou:
— “E o que encontraremos se o seguirmos?”
O fogo tremulou.
Ubiraci balança a cabeça, mostrando não saber, então para por um momento, levanta a cabeça e sorri.
— “A próxima história.”