Com a acomodação dos novos membros da Vila de Porto Seguro, Ubiraci decidiu se voluntariar para gerar filhos, visto que os Germinadores haviam dito que era tempo de trazer novas crianças para a vila. Então, uma sequência de eventos e sinais auspiciosos, desde esse momento até o ritual de bênção, que organizaram no templo dos Incarna, em Porto Seguro, após o nascimento das crianças, levavam a crer que os deuses estavam satisfeitos com estas crianças. Entre as pessoas que se voluntariaram, reunidas na praça da Vila, num dia nublado e de nuvens densas, Ubiraci conversava com as mulheres para ver com qual ele se identificava mais, visto que viveriam muito tempo juntos, era importante que tivessem afinidade. Num dado momento, uma coruja, animal de hábitos noturnos, passou voando em sua frente e, ao acompanhar o movimento do animal, seus olhos captam o momento em que as nuvens densas cedem espaço para a luz dourada do Sol, que ilumina, apenas por um breve momento, o rosto de Yara. O Lunar foi direto até ela, que ele nem sabia que havia se voluntariado, e a conversa foi ainda mais agradável do que normalmente era com ela.
A concepção se deu num dia não planejado, mas que calhou de ser uma noite em que Luna brilhava como nunca, com sua luz banhando o casal que estava em uma cachoeira tendo sobre eles apenas o manto estrelado de Luna, mesmo sendo a primeira vez dos dois juntos.
Durante a gravidez, é papel do pai prover tudo que a mãe precisar e não puder fazer ela mesma. Ubiraci a acompanhou com afeto e cuidado, o que aproximou muito os dois. Sempre que algo acontecia, e Yara ficava angustiada, ele cantarolava uma melodia que veio espontaneamente em sua cabeça. A melodia tinha momentos suaves, mas caóticos, seguidos por momentos de um ritmo cadenciado, constante e altivo, e então voltando ao caos, mas agora em uma versão mais feroz, agitada. Essas alternâncias se repetiam, sempre intercalando caos e ordem, cada um com cinco tons diferentes. Com o tempo, Yara também passou a cantarolar a melodia acariciando sua barriga, quando havia inquietude lá dentro, mas ela adicionou o som de seu instrumento, um misto de sino e tambor, e o Jovem pai acompanhava com voz e outros instrumentos, dançando, ou as duas coisas. Essa melodia os acompanhou por toda a gravidez.
Apesar de a gravidez ter sido tranquila, no geral, o parto foi muito complicado, mesmo com a ajuda dos experientes parteiros e parteiras da Vila do Ciclo Infinito. O trabalho de parto durou quase 12 horas, sendo que o primeiro bebê nasceu, um menino, com o último raio do Unconquered Sun, e a segunda, uma menina, já sendo banhada pela luz de Luna. Apesar de todo o trabalho, mãe e filhos estavam com a saúde perfeita e Ubiraci estava tomado pelo mais profundo amor pelos três. A felicidade dele, ao presenciar este momento tão rico, vendo aquelas pequenas criaturinhas no colo da mãe, parecia querer fazer seu peito explodir. Assim que os bebês haviam sido limpos e estavam descansando, ao lado da mãe, Ubiraci redigiu mensagens para aqueles mais próximos dele, e enviou via semente mensageira, convidando-os para que viessem partilhar deste momento tão feliz com ele. Para que viessem comemorar a vida. Todos os exaltados do grupo foram chamados, assim como Cuauhtemoc e Maka. Ravi em especial, com que já havia realizado um poderoso ritual alguns anos antes, ele convidou para fazer uma prece pedindo a benção do Unconquered Sun e de Luna para os pequenos. O Zenith foi o primeiro a saber os nomes das crianças: Guaraci e Jaci, Sol e Lua.
O ritual teve início com o sol em Zenith, quando Unconquered Sun irradia sua bênção com mais intensidade, por toda a Criação.
Ravi e Ubiraci, em uníssono, começam a recitar poemas e entoaram rezas em nome do Sol, honrando sua bravura incomparável. Os poemas evocavam as virtudes do sol, e as preces pediam que essas qualidades guiassem as novas vidas.
Em celebração, dançaram com fervor, suas vozes ressoando pelo templo, enquanto os instrumentos, feitos pelas mãos habilidosas de Ubiraci e sua tribo, ecoavam como o bater de um coração gigante, pulsando com a energia da vida. Eles giravam em torno do templo, sempre no sentido horário, acompanhando o caminho do sol, enquanto suas canções exaltavam a glória do dia e a promessa de um futuro brilhante.
À medida que a tarde avançava, o templo se enchia de espectadores. Alguns se uniram ao coro, outros se arriscaram na dança, e as crianças riam e brincavam, encantadas pela alegria que permeia o ar. Era uma celebração da vida em sua forma mais pura, onde a devoção aos Incarna se misturava com a alegria do momento.
Quando os últimos raios de sol dourado começaram a desvanecer no horizonte, Rudá trouxe Guaraci e o colocou nos braços de Ravi, enquanto Iberê trouxe Jaci para Ubiraci. Yara mantinha o ritmo do ritual com um instrumento de sua autoria (um meio termo entre sino e tambor). Com as crianças em seus braços, eles recitaram uma prece poderosa, invocando o Unconquered Sun para que concedesse sua bênção, e pedindo a Luna que mostrasse a elas os muitos caminhos que a vida oferece.
Os mortais olham para cima, em êxtase, mas os Exaltados continuam com o ritual.
Ubiraci, com reverência, colocou uma pequena pepita de ouro sobre a testa de Guaraci, o símbolo do sol, e uma de prata sobre a testa de Jaci, o símbolo da lua.
Com a lua cheia agora dominando o céu, os dois exaltados retomaram a dança, mas desta vez no sentido anti-horário, simbolizando a natureza mutável de Luna, que sempre se equilibra com o sol. Eles cantavam e dançavam com uma nova energia, suas vozes e movimentos refletindo a natureza flexível e mutável da deusa da noite. A multidão se reuniu mais uma vez, agora para honrar Luna, a senhora das transformações, a protetora dos que caminham sob as estrelas, e a donzela prateada que guarda os segredos da noite.
As danças fluíam como a água, adaptando-se ao ritmo da lua, enquanto os instrumentos ecoavam como o uivo dos lobos e o murmúrio das folhas ao vento. A celebração se tornou uma ode à dualidade da vida, à luz e à escuridão, ao sol e à lua, unidos em harmonia para abençoar as novas vidas que haviam sido trazidas ao mundo.
Meia noite Ravi e Ubiraci recitam, em uníssono, as últimas palavras, finalizando o ritual.
À medida que as palavras finais do ritual se dissipavam no ar noturno, uma atmosfera de expectativa tomou conta do templo. O céu, antes limpo e iluminado pela lua cheia, começou a se transformar. Um silêncio profundo envolveu todos os presentes, como se o próprio mundo prendesse a respiração. Os exaltados e mortais que estavam lá sentiram a mudança, como um sussurro que percorre a espinha, anunciando que algo extraordinário estava para acontecer.
Enquanto Ubiraci segurava o pingente recém-formado em suas mãos, seus olhos se ergueram para a lua. Subitamente, sua visão escureceu, e ele se viu em um lugar onde a luz prateada de Luna era ainda mais intensa, quase tangível. De pé à sua frente estava a figura andrógina da Two-Faced Bride, a deusa da fertilidade, em toda a sua majestade, com uma expressão que misturava serenidade e poder.
Ela sorriu para Ubiraci, seus olhos brilhando com uma sabedoria antiga. “Ubiraci,” sua voz era ao mesmo tempo suave e penetrante, ressoando em sua mente como o som de uma melodia esquecida. “Assim como a lua muda suas fases, você também deve abraçar a mudança. Não tema o que está por vir, pois é através da transformação que você completará o seu destino.”
A visão se desfez tão rapidamente quanto havia começado, e Ubiraci se encontrou de volta ao templo, segurando ainda o pingente prateado, agora ciente da profundidade da jornada que o aguardava.
Logo apos, todos os outros exaltados e Cuauhtemoc que participavam do ritual sentiram um calor em seus corações, como se uma chama tivesse sido acesa dentro deles. O Unconquered Sun, em sua magnificência, os havia tocado com uma mensagem de esperança e propósito. “Me alegra que ainda há seguidores da luz,” sua voz ecoou em suas mentes, cheia de poder e bondade. “Não hesitem em levar a luz aos lugares mais sombrios em meu nome.”
E então, sem qualquer aviso, a lua começou a escurecer. Uma sombra misteriosa avançava lentamente sobre sua superfície brilhante, cobrindo-a com um véu de escuridão. Mas essa não era uma escuridão comum; era viva, pulsante, como se a própria Criação estivesse participando deste momento sagrado.
Os olhos dos presentes se fixaram na lua, que começava a mudar de cor. Do leste, onde todos estavam, a lua assumiu um tom verdejante, como se tivesse sido pintada pelas florestas imensas que cercavam a região. Mas logo, as cores começaram a mudar, fluindo em tons de vermelho, negro e azul, dançando e se misturando como um caleidoscópio celestial.
O eclipse lunar, um evento tão raro e significativo, encheu o templo de uma sensação de reverência. Não havia murmúrios, apenas um silêncio reverencial, enquanto todos absorviam a visão esplendorosa acima deles. As duas pequenas pepitas, uma de prata e outra de ouro, que Ubiraci havia colocado nas testas de Guaraci e Jaci, começaram a brilhar intensamente. Lentamente, diante dos olhos maravilhados de todos, as pepitas se fundiram, moldando-se em dois pingentes delicados, um representando o sol e outro, a lua. Estes pingentes pareciam pulsar com uma energia própria, refletindo o brilho das estrelas que pontilhavam o céu, agora dominado pelo eclipse.
Enquanto as cores continuavam a mudar e a lua se envolvia naquela dança de luz e sombra, Cuauhtemoc, com seu semblante grave e sábio, avançou. Ele ergueu as mãos em um gesto de profunda reverência e começou a falar, sua voz grave e carregada de significado.
“Meus irmãos e irmãs,” ele começou, sua voz ecoando pelo templo, “o que vocês veem diante de vocês é um sinal dos incarnas, uma manifestação da Criação em sua forma mais pura. Este eclipse lunar é raro e sempre ocorre sob o olhar atento do Unconquered Sun e de Luna. Ele nos lembra da ligação eterna entre a luz e a escuridão, da necessidade de equilíbrio em tudo que fazemos.”
Ele fez uma pausa, permitindo que suas palavras ecoassem nas mentes e nos corações dos presentes, antes de continuar. “A lua, hoje, reflete as cores dos Elementos, mostrando-nos que a Criação está protegida, que os deuses vigiam de perto tudo o que acontece neste mundo. Esta é uma noite de promessas, de renovação e de esperança. Como o Unconquered Sun nos lembrou, é nosso dever levar a luz aos lugares mais sombrios, assim como a luz da lua nos guia durante a noite.”
Cuauhtemoc se voltou para Ubiraci, Ravi, Yara, e os outros exaltados, seu olhar cheio de respeito e admiração. “Vocês, que foram tocados pelos deuses, são os portadores dessa luz. Que este momento fique gravado em suas almas, como um farol que os guiará em todas as suas jornadas.”
O eclipse lentamente começou a retroceder, e as cores vibrantes que dançavam na superfície da lua deram lugar ao brilho prateado e constante que todos conheciam. Quando a luz da lua cheia finalmente voltou a iluminar a Criação por completo, o templo explodiu em aclamações e aplausos, celebrando a benção recebida naquela noite sagrada.
Mas no coração de todos, especialmente de Ubiraci e Yara, havia uma nova compreensão, um novo propósito. A vida que eles haviam criado, abençoada tanto pelo Sol quanto pela Lua, estava destinada a grandes coisas. E com isso, eles sabiam que suas jornadas estavam apenas começando, e que cada passo, cada mudança, os aproximaria do destino que lhes havia sido reservado pelos deuses.