Entrada 1: O Olho Sempre Sobre Mim

Eu não nasci livre. Nunca soube o gosto da escolha, o peso da dúvida ou o alívio da incerteza. Desde a minha primeira memória, eu pertencia ao Perfect. Meu corpo, minha mente, meus pensamentos — tudo era dele. O Sécetro da Paz e da Ordem selou meu destino antes mesmo de eu compreender o que significava ser um homem.

O olho escarlate em minha palma não era apenas uma marca, era um grilhão invisível que me controlava. Se eu ousasse questionar, um sussurro de dor atravessaria meus ossos, um lembrete de que meu juramento não era apenas uma promessa, mas uma sentença.


Entrada 4: Entre Muros e Correntes

Paragon, a cidade perfeita. O cemitério da liberdade. Enquanto estrangeiros caminhavam por suas ruas com olhos arregalados e elogios na boca, eu via as correntes que envolviam cada homem, mulher e criança.

O Perfect nos chamava de seus filhos. Ele dizia que não havia crime, não havia guerra, que todos tinham o que precisavam. Mas a paz era uma mentira, uma mordaça imposta pelo medo.

Eu lutei por ele. Derramei sangue por ele. Traí amigos por ele. E nunca me foi dada a escolha de fazer diferente.


Entrada 11: O Grito que Nunca Pude Dar

Eu me lembro do dia em que vi um menino chorar. Ele não queria fazer o juramento. Ele tremia diante do Perfect, seus pequenos punhos cerrados, os olhos marejados. Seu pai tentou forçá-lo. O garoto recusou.

Naquela noite, ele morreu.

A dor o consumiu. O olho escarlate fechou-se em sua palma, condenando-o. Ele gritou por horas. Depois, não gritou mais.

Eu nunca soube o nome dele.


Entrada 17: A Queda da Máscara

Fui enviado ao Império por ordem do Perfect. Minha missão era clara: fortalecer laços, aprender segredos, garantir que Paragon nunca estivesse à mercê dos Dragões. Mas foi lá que tudo mudou.

Foi lá que exaltei.

Por um instante, senti uma chama queimando dentro de mim, algo maior do que qualquer coisa que já havia conhecido. A dor do Sécetro desvaneceu. A marca em minha palma desapareceu.

Eu era livre. Pela primeira vez, eu era livre.

Mas então veio o vazio.


Entrada 22: O Vazio e a Raiva

Por que sinto falta das correntes que me prendiam? Por que o silêncio da liberdade me aterroriza mais do que os gritos da servidão?

Eu queria ser livre. Mas ninguém me ensinou o que fazer com a liberdade.

Criação me odeia. Ela sussurra sobre minha nova natureza. Ela me chama de monstro, de abominação. Os que me conheciam, que chamavam meu nome com respeito, agora falam dele com medo.

Não fui eu que mudei. Foram eles.


Entrada 27: O Preço da Liberdade

Olhando para trás, percebo que minha primeira batalha como um Anátema não foi contra os Dragões do Império ou contra os caçadores que me perseguiram. Foi contra os meus próprios companheiros.

Eles me olharam com horror quando minha pele brilhou com a luz dourada. Quando a marca do Perfect desapareceu, minha maldição nasceu. Para eles, eu não era mais o guerreiro que conheciam. Eu era um demônio.

Fui cercado por aqueles que um dia chamava de irmãos. Suas espadas ergueram-se contra mim. Eu implorei, gritei, tentei fazê-los entender que ainda era eu. Mas não importava. O juramento deles era mais forte que qualquer laço de irmandade.

E então, eu os matei.

Matei um a um. Rasguei suas armaduras, quebrei suas lanças, esmaguei seus crânios. O mesmo treinamento que compartilhei com eles tornou-se sua ruína. Suas vozes ainda ecoam dentro de mim.

Eu queria vingança. Mas naquele momento, tudo que senti foi vazio.


Entrada 31: O Legado da Dor

O Perfect moldou-me como se molda uma espada. Mas ele não percebeu que, ao quebrar minhas correntes, ele também partiu a lâmina.

Eu sou uma arma sem um dono.

Eu sou um guerreiro sem uma causa.

Eu sou um homem sem um lar.

E se eu não posso ser um senhor da Criação, então a destruirei.


Entrada 36: O Leste e as Sombras

Fugi para onde os mapas não alcançam. Para onde o Império não ousa marchar. O Leste.

A selva me engoliu, seu verde infinito escondendo os meus passos. A cada noite, os sussurros dos caçadores me perseguiam. Eu sentia seus olhos, suas lanças prontas para perfurar minha carne. Mas eles nunca me encontraram.

Lá, entre as raízes ancestrais, encontrei coisas que deveriam estar mortas. Espíritos sussurravam meu nome. Os fantasmas dos guerreiros que matei me chamavam. No meio da podridão, encontrei antigos templos, esquecidos até pelos deuses.

E entre esses ossos do passado, encontrei minha nova verdade.

Não sou um servo. Não sou um rei. Sou um flagelo.

A Criação me teme? Ótimo. Ela aprenderá a temer ainda mais.


Entrada Final: O Fogo e a Fúria

Eu caminho sobre ruínas. Ruínas de cidades, ruínas de sonhos, ruínas de promessas que nunca foram cumpridas.

Jurei a mim mesmo que nunca mais serviria um mestre. Jurei que nunca mais me curvaria diante de um trono. Mas a Criação é um ciclo, e eu sou apenas mais um prisioneiro, rodando dentro dele.

Se eu sou um monstro, então que seja. Se sou um erro, que minha existência seja o prenúncio do fim. Queimarei tudo até que reste apenas cinzas.

Se eu não posso ter paz, então ninguém terá.