A Jornada de Vinayaka e Aadha Hee Poorn Hai

  • Eu não comia isso.

A voz era tão inesperada quanto o conteúdo do aviso. Ele havia comido aqueles frutos todo o caminho até ali, e não via motivo algum para permanecer com fome diante de tanta abundância.

— Estes frutos são comestíveis. Já os encontrei antes. Não precisa se preocupar comigo. — Ele responde antes mesmo de virar, ainda colhendo uma das frutas. Olha então na direção da voz apenas para se deparar com algo tão estranho quanto as criaturas que enfrentara tão recentemente, na batalha contra as criaturas das trevas. Seu treinamento e preparo permitiram que mantivesse a mente limpa e tranquila, podendo escolher qual a melhor forma de agir na situação. Ele escolhe entender mais, antes de agir, mas com o conhecimento de que seu corpo reagiria prontamente caso fosse um inimigo.

Diante dele estava uma criatura antinatural. Seu rosto era um borrão sólido, sem qualquer elemento facial. Nem olhos, boca, nariz ou mesmo cabelos, eram minimamente humanos. Haviam apenas algumas protuberâncias, que poderiam, com uma boa dose de boa vontade, ser identificadas como vagamente semelhantes a cavidade ocular e boca… e pareciam mostrar tristeza. De sua cabeça minúsculos tentáculos, tão brancos quanto sua pele, e aparentemente uma continuação dela, caíam molhados sobre os ombros da criatura. A parte realmente assustadora, porém, estava abaixo. Desde o pescoço, o corpo era cadavérico de tão magro, apesar de não apresentar nenhum sinal de putrefação. Pelo contrário, sua pele tinha um aspecto bastante saudável. O tronco apresentava partes onde deveriam haver ossos mas não havia, o tamanho dos braços era muito menor do que deveria, e o pior: ele não continuava. Antes mesmo de chegar à cintura, o corpo simplesmente acabava, afinando rapidamente até ficar do tamanho e espessura de um rabo de gato.

Seu treinamento o manteve calmo.

— O que é você?

  • Não o que. Quem. Não faz mal pra você.

A voz preocupada parecia sincera, mas ele não abaixaria a guarda.

  • Por que diz que eu não deveria comer esses frutos? Não parecem ruins.
  • Não saber outros. Estes está ruim. Espírito ruim na árvore, não mais amigo.

Prestando um pouco mais de atenção à árvore, agora que a criatura mencionara, era diferente das outras: estava mais escura que as que ele viu antes. Ele pega uma faca e corta o fruto e, para sua surpresa, a parte interna estava tão negra quanto madeira queimada. A criatura estava certa.

-Como você sabia?

  • Conhece plantas e conhece pássaros. Pássaros não ir mais pra árvore. Esquilos não sobe mais. Se olhar vê.

Ele bota mais atenção ao ambiente. Cansado do combate e com fome, acabou nem observando tão bem assim o ambiente, mesmo isso sendo algo que costumava fazer. Não havia muita coisa diferente naquela árvore, num primeiro momento, e mesmo quando se olhava atentamente para ela, apenas alguns pequenos nós incomuns eram perceptíveis. Uma pessoa que não conhece aquele tipo de árvore jamais perceberia. No entanto, ao olhar ao redor, viu que os pássaros sequer passavam por entre os galhos, circundando-a mesmo que quisessem apenas seguir reto. Não havia insetos, até mesmo as formigas contornavam a árvore. Suas folhas estavam perfeitamente verdes e vibrantes, enquanto as demais já começavam a perder o viço pela chegada da nova estação.

  • Parece bom, mas não é. Esta boa. Pequena mas boa.

Diz a criatura sem ser solicitada que o fizesse. Ele então segue para perto do arbusto que ela mencionara. Haviam algumas frutinhas de um vermelho tão escuro que se confundia com o verde também escuro das folhas. Pegando uma das frutas, não maior que uma azeitona, e cortando como fez antes, percebe que ela estava saudável.

  • Vê? Casulo e lagarta. Boa fruta.

Realmente não havia qualquer indício de que aquela fruta tivesse algum problema, mas mesmo assim não arriscaria comer ali. Enquanto ia colhendo, manteve parte da atenção na criatura.

— Você parece conhecer bem das plantas, hein?

  • Plantas? Não. Vida nas coisas mistura. Dá pra ver.

— Obrigado por ter me avisado. Se não f…

A criatura mudou de postura. Antes curvada, agora se colocava altiva e com os vales onde deveriam estar os olhos se fixaram nele, e sua voz, antes triste e baixa, agora mostrava potência e segurança. Ela passa a falar em um tom que transbordava sabedoria.

  • Seu papel no mundo ainda não acabou. Sua jornada será longa e com muitas dificuldades, mas a sabedoria que adquiriu até aqui o ajudará a trilhar seu caminho. Haverá dor, medo, dúvida, mas não estará sozinho nem esquecido. A luz que cega, guiará. Quando chegarem tempestade, fúria, escuridão, inspiração e brilho, seu descanso será interrompido.

A criatura volta à postura anterior, curvada e frágil, interrompendo a fala tão de repente quanto começou.

— O que você disse? Do que está falando?

  • As coisas mistura a vida. Olha tudo e vai saber o que tá errado.

— Não! Depois disso!

  • Hummm… nada. Cê que disse.

Ele se aproxima da criatura, o fogo que sempre foi sua característica voltando à tona. A criatura recua para o rio, amedrontada.

— Não fala nada. Não machuca eu.

— Não vou te fazer mal. Mas quero entender o que você disse sobre mim. Olha, me chamo Vinayaka. Qual seu nome?

  • Nome?

— Sim, como se chama? Como as pessoas te chamam?

  • Não chamo eu, mas chamam eu monstro, coisa, aquilo… grita e foge, ou grita e bate eu. Mas não nome.

— Está tudo bem. Não gostaria de te chamar de criatura, muito menos monstro. Me permite dar um nome?

  • Não bate?

— Não.

  • Então tá, Vinayaka.

O guerreiro sorri e continua.

— Isso, esse é meu nome. O que acha de Aadha Hee Poorn Hai?

  • Adapurnai.

— Não. Aadha Hee Poorn Hai.

  • Adarripurnrai.

— Quase isso. Gosta?

  • Sim. Faz barulho bom.

Um grito de um dos homens de Vinayaka interrompe a conversa. O capitão havia perdido a noção do tempo.

— Não me esquecerei de você, Aadha Hee Poorn Hai, nem do que me disse.

  • Lembra? Eu lembra Vinaca também. Não grito nem bateu.

Com uma bolsa cheia das frutas do arbusto, Vinayaka volta para seus homens. Aadha Hee Poorn Hai voltou para o rio e, enquanto submergia, tocou o peito e disse num tom satisfeito:

  • Eu Adarripurnrai.