O jovem Lunar procurava entender quais os espíritos poderiam ajudar ao grupo para se estabelecerem na região. Era um trabalho árduo e demorado. Com a ajuda dos sábios de Arbohold, e de seus batedores, ele conseguiu saber quais era os principais deuses da região, e observando os homens da guilda pode ter uma ideia dos deuses específicos, mas ele queria não ter mais que depender da Guilda para conseguir passagem e aquela região da floresta, entre o forte e a Shadowland, a guilda sequer tinha algum acordo. Ele conseguiu permissão do principal deus da região para que passassem pelo território com muito mais facilidade e rapidez, visto que havia conseguido agradá-lo com uma poderosa prece que tocou o coração do deus, no entanto este deus poderoso não seria tão receptivo a algum contrato de longo prazo. Por conta disso, aproveitando da bênção do deus, que seria perceptível a todos os subordinados dele, Ubiraci passou a falar com deuses menores que poderiam dar alguma proteção ou vantagem no caminho, negociando preces, sacrifícios de objetos, entre outras coisas que os deuses queriam. Teve até mesmo um que pediu para que Ubiraci tocasse uma uma música específica que ele gostava e fazia séculos que não ouvia. Entre o espírito cantarolando e Ubiraci tentando identificar qual era a melodia original a partir disso, foram algumas horas.

Num determinado dia, já após ter fechado alguns acordos, Ubiraci decide fazer uma pausa para comer alguma coisa e descansar um pouco. O lunar gostava de fazer essas pausas ao lado de corpos d’água, e buscou algum lugar assim, o que levou um pouco de tempo. Finalmente ele encontrou um rio de águas cristalinas, tanto que mesmo sua profundidade sendo capaz de cobrir um homem adulto, era possível enxergar as pequenas pedras, em tons de verde, marrom e laranja, que repousavam no fundo do rio. Era uma visão que o lembrava de casa. Procurou uma pedra que pudesse usar como mesa e começou a colher plantas e frutos que ele pudesse usar para montar seu pequeno banquete. Assim que se sentou, ouviu uma voz suave e melodiosa.

— Boa tarde, forasteiro. Escolheu um ótimo lugar para sua refeição. O pôr do sol, visto dessa posição, é admirável. E permita-me dizer que a melodia que está assobiando é muito bonita.

Ubiraci sequer tinha se dado conta que estava assobiando, quanto mais da presença de alguém alí. Quando ele se vira para ver quem falava com ele, olhando de baixo para cima, visto que ele estava com a cabeça baixa antes de virar, o lunar tem uma agradável surpresa. Subindo pelas pernas atléticas do homem, que vestia apenas uma calça de tecido leve e na altura dos joelhos que, assim como sua pele escura, como a do ramo de Ubiraci na Vila do Ciclo Infinito, estava encharcada de água. Seu tronco era igualmente atlético e seus braços fortes, fechando o conjunto de corpo jovem e saudável. Foi apenas quando Ubiraci alcançou seu rosto que sentiu que algo não estava certo. Ele força seus olhos, e sua mente, tentando entender o que havia de estranho naquela situação e, ao fazer isso, ele pode ver claramente que seu interlocutor, na verdade, tinha uma pele clara como a das mulheres da corte de Yamato, e tão viva e saudável quanto. Seu rosto era desconfortavelmente simétrico, com orelhas levemente pontudas, mas diferentes das do povo de Arbohold. Ele sorria de forma amigável e simpática.

— Por favor, sente-se comigo para aproveitarmos essa visão da retirada do Unconquered Sun, que menciona. - Disse o Lunar apontando para que ele se sentasse do outro lado da mesa. Ele não queria ainda julgá-lo antes de saber mais sobre ele.

— Vejo que não pegou os frutos daquela árvore. Nenhum outro que veio aqui antes havia evitado aquela árvore logo no primeiro momento.

— Eles não são bons. Toda a vida evita aquela árvore. Não sei exatamente o que, mas sei que há algo de errado ali, apesar dos frutos serem muito bonitos. Talvez por isso as pessoas pensem que é uma boa ideia pegá-los, mas eu aprendi a reconhecer, e respeitar, a vida onde quer que eu vá. Ao menos aqui no Leste da Criação.

— Aprendeu bem, - Disse o estranho sorrindo - Não irá caçar, ou pescar?

— Não, estou bem apenas com as frutas e essas raízes para fazer uma salada. Meu povo não é muito inclinado a caçar, preferimos não desperdiçar o potencial dos animais. Ah! Mas que falta de educação a minha. Me chamo Ubiraci, e você?

— Meu nome é Adarripurnrai. É um prazer conhecê-lo, Ubiraci.

— Eu gostaria de dizer que é um prazer, mas ainda estou um pouco preocupado em saber o porquê de você ter tentado ocultar sua aparência de mim. - O Jovem Lunar observa enquanto Adarripurnrai, em uma sequência de expressões faciais, muda de surpreso, para levemente preocupado e depois para um sorriso satisfeito. - Eu percebi logo que chegou, mas naquele momento não quis aborrecê-lo.

— Entendo. Nem todos aceitam bem esta aparência. Muitos se assustam, outros tem raiva, aprendi que é melhor me apresentar como eles gostariam de me ver. Fica mais fácil fazer amizades, sabe?

— Sei sim. - Ubiraci sorri, se lembrando de sua própria habilidade de se transformar - Espero que entenda a minha necessidade de não baixar a guarda em um território estranho, está bem? Mas posso dizer que é bem agradável conversar com você.

— Eu agradeço pela sinceridade, isto é algo raro. - Disse o estranho com um sorriso um pouco mais animado - Vejo que você é um guerreiro habilidoso, apesar de ter uma alma de artista e um comportamento de um cortesão. Uma combinação bastante inusitada. Entretanto, de alguma forma, parece combinar perfeitamente com você.

— Muito obrigado pelo elogio. - Ubiraci sorri - Normalmente me apontam isso como uma desvantagem, no entanto, eu gosto de poder ver o mundo de várias perspectivas, sabe? A vida se dá em uma miríade de formas, cheiros, gestos, sabores e pessoas. Entender todos esses aspectos nos dá uma outra perspectiva sobre a Criação. Mas me diga, o que o traz aqui, num lugar tão afastado? Não me recordo de ter visto nenhum assentamento nesta região.

— Certamente que não encontrou. - Disse Adarripurnrai, com um certo tom de obviedade na voz - Eu gostaria que houvesse pessoas aqui perto, mas mesmo quando ando muito, não encontro nenhum assentamento, ou caravana, então acabo sempre retornando para cá. A última vez que vi alguém faz muito tempo, mas era uma pessoa agradável, como você.

— Ao menos tem sorte com as visitas, não é? - Ambos riem e Ubiraci continua - Bom, se quiser sair daqui, pode ir comigo quando eu for retornar. Sei onde há assentamentos na região e posso guiá-lo até lá. Só não serei muito rápido, pois preciso ir conversando com os deuses e espíritos da região.

— Isso seria maravilhoso! - Adarripurnai sorri larga e verdadeiramente - Se me permitir, posso apresentá-lo a alguns deuses que eu conheço. Vivo aqui há alguns séculos e já andei muito por essa região.

— Séculos? - Indagou Ubiraci surpreso - Você é um espírito?

— Ah sim! Não havia mencionado essa parte, não é? Eu sou o que os outros deuses chamam de “deus menor”, mas não gosto muito dessa nomenclatura. Eu prefiro meu nome.

— E não é custoso para você se materializar?

— Apenas se eu ficasse trocando entre um estado e o outro, mas eu gosto de sentir a brisa, a água no rio, os pássaros, e gosto de conversar com pessoas. Essas coisas são mais difíceis, senão impossíveis, quando na forma imaterial, por isso prefiro seguir nesta forma.

— É uma forma bem inusitada de um deus estar na criação, mas lhe cai bem. - Novamente ambos riem, com o parafraseamento de Ubiraci. - O convite ainda está válido. Se quiser me acompanhar na jornada de volta, será bem vindo. Será bom ter alguém para conversar enquanto caminho. Mas… Não se afastará do seu lar?

— Não se preocupe com isso. Onde houver pessoas, lá será meu lar.

Ubiraci sorri enquanto coloca uma fruta na boca. Eles fazem a viagem de volta muito tranquilamente, visto que Adarripurnrai realmente conhecia muitos dos deuses dali, e fez o favor de apresentar o Lunar para cada um deles. Quando não estavam falando com deuses, falavam entre si, o que tornou a jornada muito mais agradável. A viagem levou 11 dias, onde puderam se conhecer melhor e conversar longamente sobre diversos aspectos da vida. Quando estavam perto da fortaleza, Ubiraci apontou a direção de Arbohold.

— Ali fica o maior assentamento desta região, respeite as leis do lugar e não terá problemas.

— Você não irá para lá?

— Ainda não. Preciso resolver um problema mais ao norte, vou levar uns dois meses para voltar. Se ainda estiver por aqui, gostaria da sua companhia no retorno para casa.

— Não quero lhe causar incômodo. Já fez muito por mim ao me trazer aqui.

— Isto está muito longe de ser um incômodo. Tem sido muito agradável estar com você. Seria um prazer se continuasse ao meu lado.

— É uma proposta tentadora!

— Então pense nela nesses dias que estarei ao norte. Quando eu voltar, vemos se considera a proposta mais que tentadora e se une a mim.

Ambos riem enquanto se afastam. Ali começou uma longa amizade.