A chegada em Snakepoint foi tranquila, relativamente discreta também. Preferiram não fazer alardes, não estavam com roupas chamativas e foram direto para o campo. O destino era uma fazenda nas proximidades da cidade, Recanto do Sol.

Iberê e Japira eram os donos do Recanto do Sol. O casal e sua família são principalmente apicultores, mas também criam animais e plantam coisas para consumo próprio, no geral são bem humildes. Toda a família são devotos do Culto dos Iluminados e ficaram mais do que felizes de receber o próprio messias do Sol em suas terras.

Ravi foi tratado com o melhor que Iberê e sua família poderiam oferecer. Não era muito, mas era de coração e isso que importa.

Apesar de devotos, não eram muito versados na religião. Faziam rezas erradas, não conheciam os cânticos, as práticas eram meio aleatórias e faziam uso de pouco entorpecentes.

Nada que não pudesse ser ensinado.

Com o passar dos dias, Naezra levou alguns asseclas para Snakepoint, para espalhar a palavra dos Filhos do Sol, e também para comprar e trocar coisas.

Ele percebeu uma coisa que achou curiosa. Mesmo os habitantes tendo contato com seres sobrenaturais com uma frequência maior que muitas partes da Criação, eles não integravam esse contato em suas vidas. Sabiam combater rakshasas, reconheciam mutações com facilidade, usavam amuletos de proteção, tinham dezenas de superstições, conviviam com beastman e alguns pareciam ter contato com fantasmas. Porém rezam pouco para os deuses, não faziam muitas oferendas aos espíritos, mal conheciam outras religiões e principalmente, confundiam elementais com fadas. O garda bird recebeu muitos olhares estranhos enquanto andava pela cidade enquanto proclamava sobre o Unconquered Sun.

Achou que seria melhor que Ravi fosse em seu lugar no dia seguinte. Talvez um mortal, mesmo extrangeiro e com olhos dourados, não recebesse tanta antipatia quanto ele.

Ravi fez preces nas praças da cidade e próximo a alguns bares. Algumas pessoas pararam para ouví-lo, mas mais por conta da sua beleza, da sua voz bela, dos seus adornos de ouro e dos seus olhos chamativos. O argumento de que a vida das pessoas estava ruim porque eles não adoravam o Sol não parecia muito convincente.

Porém, no campo, as coisas eram um pouco diferentes. Eles sentavam e conversavam com as famílias que estavam dispostas a ouvi-los. Ofereciam não apenas palavras de conforto, mas também ajuda ao que precisassem. Isso surtiu mais efeito do que na cidade.

E foi assim por algumas semanas, Naezra ficou por conta de construir um pequeno altar nas terras de Iberê. Ravi e alguns asseclas iam de fazenda em fazenda converter as pessoas, e também para a cidade pregar e fazer trocas. Dalila acompanhou as duas coisas.

Não demorou muito para que o culto Filhos do Sol chamasse alguma atenção. Atenções desejadas e indesejadas. Não foram uma ou duas pessoas que se interessaram mais pelos braceletes de ouro de Ravi do que por suas palavras. Claro que depois de alguns braços torcidos e pernas quebradas eles aprenderam que não fazia bem para a saúde tentar roubar alguém do culto.

Durante uma de suas pregações em Snakepoint, Ravi viu uma ave majestosa passando dentro de uma jaula à sua frente. Era a maior coruja que já havia visto, mais alta do que ele. Uma criatura magnífica. Na jaula ao lado havia uma versão miniatura dela, um filhote. A maior estava claramente arisca, piava e tentava bicar quem estava empurrando a gaiola.

Ele seguiu as aves, quase hipnotizado por suas belezas. As aves estavam sendo transportadas até o porto, onde parecia que seriam embarcadas em um navio. Ravi chegou perto delas, enquanto os marinheiros estavam fazendo os preparos dentro do navio.

Ele chegou perto e cumprimentou as corujas. A maior tomou um susto e avançou nele, gritando e batendo as asas. Um homem dentro do navio ouviu isso e gritou para que ele se afastasse da gaiola, se não quisesse perder alguns dedos. E voltou a seus afazeres. Levou um tempo até que Ravi conseguisse acalmá-la, e disse que ele não estava junto seus captores. Não era como eles.

A mãe coruja então suplicou ao solar que, como ele não era como os humanos que a prenderam, libertasse sua filha. A bebê coruja começou a protestar, queria ficar junto com sua mãe. Aquilo tocou o solar.

Ele gritou para o cara do navio perguntando quanto custava as duas corujas. O preço que o homem gritou de volta era claramente uma sacanagem, ninguém tinha aquela quantidade de dinheiro para gastar num pássaro. O solar tirou algumas pulseiras de ouro e perguntou o que ele conseguiria com aquilo.

O homem pensou por um tempo, desceu até onde Ravi estava. Ele olhou para os brincos e o colar. Seus olhos brilharam. “Posso dizer ao meu contratante que o filhote morreu enquanto capturamos a mãe… se você acrescentar essas coisinhas”. Ravi entregou tudo ao homem, que virou gargalhando e dando ordens para que seus tripulantes subissem só com a mãe coruja. Assim que as duas foram separadas a filhote começou a chorar de dar um aperto no coração.

Ravi, com ajuda dos asseclas, levou a coruja até a fazenda. Naezra brigou com o solar por ter se desfeito de todas as joias que ele estava usando para comprar uma ave. Ele tentou contra-argumentar, mas o garda bird o deixou de castigo. Dalila, por outro lado, gostou muito da strix e ajudou a criá-la.

Inicialmente a filhote culpava Ravi por ter separado ela e sua mãe. Mas com o tempo ela se afeiçoou ao solar e à deusa. Gostava de escutar Dalila cantar canções de ninar. Ela foi criada solta, mas sempre perto, para evitar ser caçada novamente. Seu nome é K’sara.

Com o final do ano chegando eles começam a preparar para integrar as celebrações locais e também a fazer as suas próprias que já são de costume. Eles querem mudar a percepção das pessoas sobre a importância dos deuses e seu papel na Criação. Também querem tirar um pouco do stigma que a Calibração parece ter po ali. O povo local não vê essa época com bons olhos.

Para os Filhos do Sol é diferente. Eles vêem como a época em que o Unconquered Sun demonstra toda sua glória, mostrando que é o principal astro celeste. E o primeiro dia do ano é o alvorecer de novas possibilidades.

Com o começo do ano surgem alguns problemas. Monstros atacando algumas pessoas no rio e em algumas fazendas nos arredores da Recanto do Sol. A princípio não parece nada demais, mas Ravi decide ir atrás, porque pela descrição das pessoas poderia ser um demônio.

A criatura acabou se revelando um River Dragon, talvez um ser mais amedrontador que alguns demônios. Infelizmente ele não parecia disposto a conversar, tampouco a ir embora da região, nem parar de atacar as pessoas e animais domésticos. Em último caso, tiveram que abatê-lo. Conseguiram vender boa parte dele na cidade, e usaram outras como ingrediente para taumaturgia.

Chegar com um River Dragon na cidade fez um burburinho correr. Nos dias seguintes surgiram “contratações” para que eles eliminassem animais, pestes e monstros de outros lugares também. Mesmo eles insistindo que não eram caçadores, perceberam que poderiam agarinhar fiéis dessa maneira. Ao invés de pagar, eles queriam que a pessoa participasse dos cultos.

Tiveram que aceitar muitas coisas aleatórias, como supertições bestas, “posseções” ou “demônios”. Claro que houveram demônios e posessões de verdade, espíritos causando problemas, uma fada e alguns seres mutados pela wyld. Mas esses casos eram raros.

E independente do motivo que esses “exorcistas” do culto dos iluminados eram acionados, as pessoas ficavam muito aliviadas de ter seu problema resolvido. Isso ajudou a popularizar o culto. Não da maneira que gostariam, mas era melhor que nada.

Foi nessa época que conheceu Ixik, a dragon blooded do fogo da tribo Tepehlahn. Eles se conheceram de uma maneira meio conturbada, mas viraram amigos de briga. Ela fez uma visita posterior ao templo que eles tinham na fazenda Recanto do Sol e o convidou para ir até Tepehlahn.

E ele ficou feliz de ter aceitado, pois assim conheceu Cuauhtemoc, líder da tribo e fervoroso devoto do Unconquered Sun. Ele mostrou sua vila e sua cultura para Ravi, que ficou maravilhado com sua sociedade. Teve partes que o assustaram um tanto, mas no geral gostou muito desse povo.

Durante o mês que passou lá receberam uma visita de um exaltado. Um lunar. Ravi nunca havia visto um, mas Cuauhtemoc havia falado sobre eles. Ubiraci vinha solicitar ajuda para defender um povo que estava sendo atacado por criaturas vis.

Ravi se printificou, junto com os guerreiros de Tepehlahn, e foram defender a tribo dos homens jaguar. As lutas foram sangrentas e violentas. Conseguiram ganhar, mas com muito custo e muitas baixas. Descobriram que os homens morcego estavam sendo liderados por um homem morcego dragon blooded, que fugiu. Os capturados foram trocados em Snakepoint por escravos humanos.

Ravi, Naezra e Dalila tiveram muito trabalho para conseguir realocar tantas pessoas. Já estavam construindo um templo para os Filhos do Sol, mas agora tiveram que aumentar drasticamente o tamanho, para conseguir abrigar uma centena de pessoas até terem como se sustentar, e alocaram outras centenas em terras de fiéis. Dalila propôs comprar uma parte da terra de Iberê, para que conseguissem organizar o templo sem incomodar o mortal. Iberê se recusou receber qualquer tipo de dinheiro e ofereceu parte de suas terras de bom grado.

Nesses meses que eles haviam estado lá o fazendeiro já havia melhorado significativamente de vida, seus animais estavam mais fortes e mais saudáveis, sua colheita havia melhorado e suas abelhas produziam mel como nunca. Ele atribuía ao Unconquered Sun, mas a verdade é que era obra dos taumaturgistas que estavam ali. A melhora na qualidade vida foi percebida também pelas outras famílias do culto, e isso fortaleceu a fé das pessoas.

Alguns meses depois Ravi recebe um convite de Ixik, haveria um torneio de artes marciais em Tepehlahn em homenagem ao Sol. Isso juntava as duas maiores paixões dele, não teria como ele faltar.

Ele lutou como nunca havia lutado, motivado pelo significado de tudo aquilo. Cada luta ele ficava mais feliz do que a outra. A luta contra Ixit foi uma bela dança de fogo e lâminas, e acabou com Ravi a derrubando e prendendo seu pescoço ao redor da ponta de gancho da hook sword. Mas a luta final contra o lunar, tristemente, deixou a desejar.

Ele não entendeu na hora o motivo de Mufasa desistir no ápice da luta, soube depois que era por causa de ele ter brihado o caste mark. Se ele soubesse antes não teria feito isso. Mas uma vez que não tinha como voltar atrás ele aceitou as bençãos que Cuauhtemoc proferiu em seu nome. Aquele foi um dos dias mais felizes que ele já havia vivido.

Depois, conversando com Mufasa, ele pediu desculpas por quase tê-lo exposto, e o lunar respondeu com um sorriso largo e um tapinha nas costas (que pela força quase deixou o solar se fôlego). Como sinal de boa fé, Mufasa ofereceu um filhote de leão das árvores para Ravi, uma vez que o lunar havia visto o solar cuidando de uma strix filhote. Aquilo seria uma ligação entre os dois, além de uma prova de integridade moral do solar.

O lunar também se ofereceu para levar Ravi até Yamato, a vila de Amateratsu, outra solar. Ravi gostou muito da ideia, e se empolgou de finalmente conhecer outro escolhido do sol.

O encontro foi bastante cordial. O zenith se apresenta como messias do sol e explica para a outra solar que eles tem um papel a ser cumprido e que eles foram escolhidos pelo Unconquered Sun para espalhar a luz dele nesse mundo de escuridão. Ela parece entender essa importância e oferece um espaço para que eles construam um templo ao Unconquered Sun na cidade.

Ravi percebe que eles tem uma cultura bastante particular ali. Aquilo o lembra de Sijan, uma cidade conhecida pelos seus ritos funerários e culto aos mortos. Ele tenta interpretar aquilo de uma maneira cultural deles, mas fala para Amateratsu que os mortos tem que seguir um fluxo de reencarnação e que os solares são responsáveis por colocar os espíritos onde deveriam estar. Não se aprofunda muito nisso, mas começa a construção do templo ao Sol em Yamato.

O Templo dos Filhos do Sol, nas recentes terras adquiridas de Iberê, caminhava rápido por conta da quantidade absurda de mão de obra. Lidar com aquela quantidade de pessoas não foi fácil. Algumas não queriam seguir aquela religião maluca de drogados, outras não queriam ficar ali, e outras queriam tentar voltar pra casa (onde foram capturados). Essas preferiram tentar a sorte pela floresta. Não havia muitas notícias de sucesso dentre esses. Outros acharam que usar drogas e louvar ao sol era um preço muito pequeno pela sua liberdade e proteção. Mas havia alguns encrenqueiros no meio termo entre esses grupos.

Naezra de vez em quando pegava alguém roubando, mentindo ou extorquindo outro irmão. Suas punições não eram nada leves, mas seu perdão vinha logo em seguida (e ele não deixava de ficar de olho para casos repetentes). Não precisou tomar nenhuma media mais drástica do que uma expulsão, mas muitos ganharam cicatrizes durante o processo de reeducação.

Nos últimos meses, com o aumento da notoriedade e da influência do culto, Dalila e Ravi vão até o prefeito de Snakepoint para uma reunião. Eles tentam propor que o Culto dos Iluminados seja declarada como religião oficial da cidade.

O prefeito é bem cordial e simpático com eles, a conversa corre bem mas ele diz que não é possível baixar um decreto desses. As pessoas devem ser livres para escolher suas religiões, blá blá blá. Mas ele ouviu falar bem do culto e a ajuda que têm prestado à população e, por conta disso, poderia e ceder (alugado) um espaço oficial para o culto dentro da cidade. Além disso ele se prontificou a fazer a ponte entre o culto e alguns negociantes, já que o culto precisava de alguns surprimentos constantes (como ingredientes para taumaturgia, drogas, roupas, jóias, etc).

Fecharam o “acordo” com um aperto de mão e sorrisos no rosto.

E novamente começam os preparativos para o final do ano e a Calibração. Esse ano com muito mais devotos.