Ubiraci passara o último ano recolhendo, por onde quer que seus passos o levassem, galhos e gravetos de toda espécie — finos como agulhas, espessos como braços de pilão, tortos, retilíneos, recém-caídos ou já antigos. Não os escolhia ao acaso: havia critérios, medidas, intenções que só ele conhecia. Alguns, colhidos nos primeiros dias, repousavam na oficina, secando pacientemente; outros permaneciam com a casca úmida, musgo vivo aderido na medida exata do que viria a precisar.
Erguia a estrutura devagar, galho por galho, nos intervalos em que as chuvas rareavam. E, sempre que interrompia o trabalho, envolvia tudo em Tecido-couro, zeloso como quem cobre uma criança adormecida. Mogno, peroba, macieira, cerejeira, carvalho, cedro, garapeira — e até ironwood — compunham o plano silencioso, cada madeira com sua vocação, sua voz, seu destino na composição. Ainda buscou conselho entre Germinadores mais experientes; a natureza incomum da obra despertou curiosidade e, com ela, alguma ajuda generosa.
Seis meses depois, passou a reunir pessoas junto à construção. Às vezes vinham crianças; noutras, adultos ou anciãos; por vezes, todos juntos. Acendia uma fogueira e deixava que a noite se tornasse palco. Contava histórias da tribo com voz, gesto, canto e dança — e quem o escutava via imagens no ar, ouvia ecos antigos, sentia o peso e a leveza das memórias. Era aquilo que mais amava fazer. Aquilo de que mais sentia falta naqueles tempos conturbados.
Ao final de cada roda, pedia que contribuíssem com a obra. Uma criança depositava um graveto; um ancião, um punhado de carvão apagado; alguém oferecia folhas, outro, um feixe de grama. Antes, porém, Ubiraci descrevia sua visão com minúcia — não apenas o que desejava construir, mas o porquê. E então complementava: ajustava espessuras, intercalava texturas, unia o seco ao úmido, até que a imagem que ardia em sua mente ganhasse forma no mundo.
Quando terminou, a estrutura erguia-se pouco acima de sua própria altura. Havia nela madeira verde e madeira curada, musgo, folhas e fibras — tudo em seu lugar. Poderia tê-la concluído muito antes. Mas certas histórias não se apressam; pedem o tempo de qualidade que só a paciência concede.
Esperou, então, a noite do primeiro dia do primeiro mês de Ascending Fire.
O fogo começou tímido. Pequeno, hesitante. Ubiraci, com os leques nas mãos, guiava as chamas com movimentos amplos e precisos. Seus gestos eram harmônicos, como se houvesse ensaiado por anos — embora improvisasse cada passo. Dançava, e o fogo aprendia a dançar com ele. Conduzia a queima pelo caminho idealizado, alimentando-a no ritmo certo, permitindo que cada combustível se entregasse no tempo devido.
Após uma sequência de movimentos, cessou. A dança, porém, continuou nas chamas.
Ubiraci — o Lunar — sentou-se de pernas cruzadas diante da grande fogueira que agora se erguia, e concluiu a prece em silêncio. As labaredas se inclinaram, ondularam… e começaram a desenhar uma silhueta. A forma de uma mulher emergiu do fogo. As chamas caminhavam na direção dele com um movimento ao mesmo tempo sensual e imponente. Um passo se delineou — o passo de Dalilah — depois a outra perna, o torso, o rosto. Graças ao ritual que lhe permitia ver espíritos incorpóreos, contemplou-a em toda a sua beleza.
— Boa noite, Ubiraci — disse ela, a voz como brasa soprada. — Estou impressionada… e honrada com seu tributo. Pela fogueira. Pelas histórias que a ergueram.
— Seja bem-vinda, Dalilah. — Ele inclinou levemente a cabeça. — Agradeço por vir ao meu encontro. Espero fazer jus ao seu tempo e à sua atenção.
Ela sorriu, sentando-se ao seu lado.
— Tanta formalidade, Dançarino da Tempestade? — A chama que a compunha ondulou mais próxima. — Depois de algo tão tocante, feito por alguém tão belo, o mínimo que posso fazer é abandonar a velha etiqueta. Assim, talvez, possamos nos aproximar mais.
Seu rosto ficou perigosamente perto. Havia sedução em seu tom — mas também respeito.
Ubiraci sorriu, um pouco constrangido, mas firme.
— Fico feliz que tenha gostado. Faz muito tempo que queria conversar com você. Desde que Ravi me contou que era a deusa das histórias ao redor da fogueira. Na minha tribo, quase tudo vive na palavra: contos, canções, encenações… Sempre amei isso. Mesmo quando treinava para ser Guardião, eu escapava para as rodas de história. Queria entender não só os feitos do nosso povo, mas como transmiti-los. E agora, aprendendo a ser mediador… bem, isso se tornou ainda mais essencial.
Dalilah ouviu com atenção luminosa.
— Seu povo é, de fato, o mais devotado à arte de narrar. Delicio-me com suas vozes. Gosto, sobretudo, quando as crianças se reúnem por conta própria. Não importa se quem narra tem quatro anos ou quinze — os demais escutam com igual reverência. Dos contos lúdicos aos relatos dos ritos de passagem… todos têm valor.
— Não é maravilhoso? — os olhos dele brilharam. — Temos tábuas que registram nossa história coletiva, sim. Mas são os contos que carregam as experiências individuais. É assim que a sabedoria circula. Que aprendemos com os erros e acertos. — Ele respirou fundo. — Permite que eu lhe conte uma história? Uma que ainda não foi narrada sob a luz das fogueiras?
Ela assentiu.
Ubiraci contou, então, a história de sua própria exaltação — os medos, as dúvidas, o deslumbramento daquele primeiro período de sua nova vida. Falou com tal honestidade que Dalilah se emocionou. Em retribuição, ela narrou outra. E ele outra. E assim seguiram, entrelaçando narrativas como quem tece uma tapeçaria infinita.
Duas horas passaram. Depois quatro. Nove. Quinze.
O cansaço roçava o corpo de Ubiraci, mas sua mente ardia viva. Ali mesmo, juntos, criaram um conto épico: a história de um jovem de uma pequena vila que partiu pelo mundo recolhendo histórias. Ao ouvi-las, compreendia melhor cada povo; ao narrá-las a outros, construía pontes. Tornou-se um grande bardo. Das aldeias de caçadores-coletores às cortes das metrópoles, todos se reuniam para ouvi-lo. As histórias se espalhavam, e com elas o hábito de contá-las. Conflitos eram apaziguados antes de se tornarem guerras. Um período de prosperidade nascia do entendimento mútuo.
Quando Ubiraci terminou de narrar o conto em voz alta, Dalilah chorava.
Não lágrimas de tristeza — mas como uma mãe que acolhe um filho muito aguardado.
As lágrimas não caíam. Suspensas no ar, reuniam-se sob seu rosto até formar uma pequena pedra branca e opaca. Quando o pranto cessou, ela a tomou nas mãos. No interior da pedra, um ponto colorido pulsava — minúsculo como a cabeça de um alfinete — mas contendo uma miríade de emoções em cores vibrantes.
— Não sei no que isto se tornará — disse ela suavemente. — Mas sei que, se continuar a contar essa história, esta pedra se encherá das cores das emoções que despertar. Espalhe nossa criação. Um dia, terá em mãos um grande tesouro.
Ubiraci recebeu a pedra com reverência. Jamais imaginara algo assim possível. Aquilo abria sua mente para horizontes que sequer ousara sonhar — e o deixava profundamente curioso sobre os deuses e seus mistérios.
— Eu lhe agradeço, Dalilah.
Foram poucas palavras. Mas tão verdadeiras que nada mais era necessário.
Permaneceram em silêncio por algum tempo. E, quando Ubiraci piscou, ela já não estava ali.
Por um instante, pensou ter sonhado.
Então sentiu o peso leve da pedra branca em sua mão — e soube que fora muito mais do que um sonho.