28 de Ascending Earth, Sítio da Família Blackhound.

Era um dia ensolarado e era uma tradição, já há 6 gerações, que todos se reunissem no último dia de cada mês para prestar suas homenagens ao patriarca, atualmente Telus Blackhound. Era um evento sempre regado a muita bebida, comida e música. O evento tinha a função de lembrar à todos os membros da família que a principal figura de poder era o patriarca, bem como permitir que os herdeiros da família pudessem mostrar seus feitos e o próprio acúmulo de poder, pois era assim que o Patriarca escolheria seu sucessor. Kato era o filho do meio e atualmente o responsável pelos contratos menores, bem como a organização dos grupos que cuidam destas tarefas. Ele vinha crescendo bastante nos últimos tempos, principalmente após o fracasso do contrato, liderado por seu irmão mais velho, para atacar os Kin que até hoje era uma enorme mácula no currículo do primeiro na linha de sucessão, da qual nunca se recuperou. Kato estava certo de que se tornaria o próximo na linha de sucessão, muitos de seus informantes na família apontavam para isso, e havia rumores de que esse anúncio seria feito hoje, o que o deixava ainda mais animado para o almoço, que ele já gostava normalmente.

Ao se aproximar, em sua carroça com sua família, ele percebe uma movimentação estranha. Não haviam crianças correndo como de costume, não havia música ou dança, mas principalmente havia pessoas que não faziam parte da família. Antes que ele pudesse dar ordem para que seus guardas se preparassem pro combate, homens dos Cães Negros ladearam a corroça, o que automaticamente fez os soldados lembrarem de sua lealdade, bem como Kato. Sem entender o que estava acontecendo, e sem querer assustar sua família, ele segue em silêncio até a casa grande. Chegando lá, vê uma comitiva fora da casa, em oração, em círculo, mas não reconhecia quase nenhum deles, apenas o sacerdote do templo do sítio. Ele é recebido pelo próprio Telus, o que ele se lembrava de ter acontecido quando seu irmão perdeu boa parte da companhia em batalha, e isto era um péssimo sinal. Seus filhos correm para pedir a benção do avô, bem como sua esposa, seguidos do próprio Kato.

— É muito bom vê-los também crianças. Está de parabéns Cecília. Seus filhos estão fortes, saudáveis e muito bem educados. Leve-os para a casa da lagoa, minha filha. Há pães e geleias que recebemos. Estou certo de que irão gostar. Em breve eu irei para lá.

Ele se vira para o Filho Kato.

— Você fica. Vamos conversar.

Do circulo de orações, um rosto se desvia do centro para ver o que acontecia ao redor, era Clara, esposa de seu primo Nestor. Antes que ele pudesse falar qualquer coisa, ele vê o rosto dela se desfigurar em ódio.

— SEU MONSTRO!! FRATRICIDA! Você vai p…

Ela é interrompida pela mão do patriarca se levantando. Foi como se ele tivesse tirado a capacidade dela de emitir sons, instantaneamente. Seu corpo e rosto ainda gritavam, mas ela não disse mais qualquer palavra. O patriarca se aproximou do filho, com passos lentos. Kato pode ver que havia muito mais homens do que o necessário ao redor dele, mas nenhum dos seus familiares estava alí.

— Pai, eu não sei o que está acontecendo, mas estou certo de que é um mal entendido.

Telus continua a andar, sem falar nada. Kato dá alguns passos para trás, apenas para encostar em uma parede de soldados.

— E-eu… Eu não entendo! Eu não fiz nada de err… A voz foi cortada pelo som seco de osso deslocando, causado pelo contato das costas da mão do patriarca contra o maxilar de Kato.

— Sua ignorância não é capaz de mudar a realidade, então não faça afirmações falsas para mim. Ou está dizendo que estou agindo de maneira injusta? Ou ainda está querendo dizer que sou tolo o bastante para ser enganado?

— Não, Senhor. Nunca. - Ele se lembrou da postura do irmão mais velho, e de outros que havia visto falhar, e a repetiu, mantendo uma postura ereta, olhos pra frente, e voz convicta, ignorando a dor - Estou preparado para arcar com minha falha. Dê-me a punição, mas me permita aprender a evitar futuras falhas me emprestando sua sabedoria e me apresentando outra visão sobre o ocorrido.

A voz de Kato estava um pouco diferente do normal, dado ao golpe, mas ele conseguiu manter uma postura correta. Isto aparentemente agradou o patriarca, que em momento algum perdeu a calma.

— Quais os valores dos Blackhound?

— A família e a Guilda, senhor.

— E acima disso?

— Nada, senhor.

— Achei que poderia ter falhado com sua educação, mas não. Estes dois homens estão sob seu comando direto?

Aparecem dois homens sem amarras, mas claramente presos pelo medo. Faziam parte do grupo que Kato enviara para Ur. Faziam parte dos Cães Negros, mas não eram da família. Contendo o medo que tentava tomar conta de seu corpo, ele concorda com convicção.

— Sim, senhor.

Telus faz um aceno com a mão, sem nem mesmo virar o corpo, e os homens são cravejados por flechas.

— Sente-se. Irei lhe explicar o que acontecerá em seguida.

Na manhã do dia anterior

Telus estava na sala de leitura da casa grande, lendo histórias para contar aos seus netos e sobrinho netos, quando um dos guardas bate a porta com o toque de urgência. Ele deixa a leitura de lado e diz, sem se levantar, ao reconhecer a batida.

— Entre, Gladio. O que houve?

Um homem muito marcado pela guerra, mas que claramente saiu vitorioso dela, adentra rapidamente.

— Uma comitiva está no portão. Senhora Clara, esposa de seu sobrinho Nestor Blackhound, filho de Ateniel Blackhound, bem como o filho do casal, estão com esta comitiva. Clara pede autorização para que eles entrem. Ela não quis dizer o motivo, mas há algo que meus homens afirmam ser um corpo, preservado em seda e ervas, que eles estão carregando.

— Direcione homens para escoltar estas pessoas. Fiquem atentos, mas a menos que eles façam algo, são convidados em minha casa. Eu irei encontrá-los na entrada da casa.

— Sim, senhor. Telus se colocou em roupas decentes para receber visitas naquelas situações, o que incluía sua armadura leve e sua espada. Ao chegar à entrada, Clara estava chorando, com seu pequeno filho consolando-a em vão. Telus ordena que uma das empregadas leve a criança para a casa da Lagoa. Clara se aproxima para pedir a bênção do patriarca, que a dá sem restrições. A jovem mulher se controla o máximo possível para falar sem que o choro a atrapalhasse.

— Eles mataram Nestor, pai!

— Com calma. Quem o matou? E quem são essas pessoas?

— Foram os nossos! Cães Negros!!

— Isto não deve estar correto, Clara. Está certa disso?

A mulher levanta a camisa para mostrar um ferimento no abdomen.

— Eu estava lá! Por pouco meu filho não fica órfão! Eu os conheço! Se não fosse por Jurema, nossos corpos teriam ficado largados em Ur para apodrecer ou até que meu filho nos encontrasse!

Do meio dos forasteiros, uma pessoa toma a frente retirando o capuz que cobria parcialmente seu rosto. Era de uma beleza estonteante, e talvez por ser tão bela, Telus tivesse a impressão de já tela visto antes. Não, ele tinha certeza que já a conhecia e que ela era confiável, mas não se recordava de onde. A voz dela parecia algo produzido pelos próprios deuses.

— O que ela diz, Patriarca Telus Blackhound, infelizmente é verdade. Seu sobrinho Nestor Blackhound trabalhava conosco, na Companhia de comércio Ekobé, cuidando de nossa base em Ur. Recentemente alguém contratou os Cães Negros para atacar nossas empreitadas. Aparentemente, esses homens não reconheceram Nestor e o atacaram antes mesmo que ele os tivesse visto. Seu sobrinho tentou, bravamente, proteger sua família e a Ekobé, e por isso foi morto. Pelo que ele fez, estará pra sempre em nossos agradecimentos. Quando Clara reconheceu os homens, ela gritou que eles eram Blackhound, os homens gelaram ao ouvir isso, largando as armas e fugindo da cena. Os guardas conseguiram alcançar os atacantes responsáveis pela morte de Nestor, mas não os outros que fizeram parte do saque. Eles repetiram diversas vezes que estavam apenas seguindo ordens de Kato Blackhound, e acredito, verdadeiramente, que este homem que deu estas ordens não sabia que Nestor estava trabalhando lá, pois isto se deu há poucas semanas. Talvez o contratante soubesse, mas infelizmente ainda não sabemos quem foi o contratante. Nós, da Ekobé, viemos para testemunhar sobre o valor de Nestor Blackhound. Não apenas de sua competência, mas sua dedicação à sua esposa, filho e à sua comunidade, bem como sua coragem, para que dessa forma vocês, membros de sua família, pudessem ter em sua memória o grande homem que ele era. Se o senhor Patriarca me permitir, gostaria de ministrar uma prece em honra a ele, dando início aos ritos fúnebres, pois ele era muito importante para mim.

Com exceção dos Líderes da Guilda em Snake Point, nunca alguém havia falado tanto na presença de Telus, sem que ele dissesse qualquer palavra. A história que ela contou não era como um mero relato, ele ***sentiu ***a dor de Clara, ***sentiu ***o peso que a família tinha pra Nestor, ***sentiu ***o quanto Nestor valorizava a família, ***sentiu ***a importância que Nestor tinha para esta Jurema. A realização da morte de Nestor bateu como se um filho dele mesmo tivesse morrido. Sem palavras, ele concordou com a solicitação de Jurema, se sentando na varanda enquanto os preparativos eram feitos. Jurema coordenava tudo com muita desenvoltura, como se fosse da família. Seu grupo havia trazido geleias, licores e conservas, para que fossem oferecidos àqueles que fossem participar dos ritos, bem como o suficiente para ficar para a família. Trouxeram também incensos e adornos, e um pequeno altar de madeira, organizando os preparativos e direcionando as pessoas, mas com muito respeito ao papel que cada pessoa tinha, incluindo o sacerdote da família, que após a prece de Jurema assumiu a frente dos ritos. Prece não é algo que fazia jus às palavras de Jurema. Aquilo foi uma ode à família, gratidão, e à lealdade, mas nunca deixando de ser respeitoso aos espíritos e à alma de Nestor. Telus estava imensamente grato à tudo que Jurema estava fazendo, desde o ato de se deslocar de Ur até alí para que seu sobrinho tivesse os ritos adequados, até aquelas poderosas palavras ditas em prece. Quando ela estava partindo, apesar dele ter tentado fazer com que ficasse até o final os ritos, Telus diz com tom solene.

— Nenhum Cão Negro atacará sua Companhia por um ano e um dia. E informarei às outras companhias mercenárias que tenho este débito com vocês.

A Jovem mulher agradece com um meneio de cabeça. A informação parece ter suavizado ao menos um pouco a dor que ela sentia. Telus fica feliz por isso. Ele se vira para Gladio e diz em um tom severo.

— Amanhã, direcione todos os convidados para a casa da lagoa. Eu quero ser informado quando Kato chegar. Eu mesmo irei recebê-lo. Há um nome que ele precisa me dar.