Nissa nasceu nas torres luminosas de Chiaroscuro, onde os reflexos do sol dançam nas paredes de vidro como espíritos brincando entre mundos. Era filha de Marhila, a voz dourada da cidade — uma restauradora de artefatos antigos e uma musicista que cantava com a graça de um anjo e tocava instrumentos de cristal como se conversasse com os deuses.

Desde pequena, Nissa foi moldada pelo som. Suas primeiras palavras foram cantadas, não faladas. Ao lado da mãe, ela encantava mercados, pátios, salões nobres e ruelas esquecidas. A harmonia entre as duas era tão perfeita que diziam que seus duetos podiam fazer chover no deserto ou acalmar a fúria de espíritos do vento.

Aos 20 anos, Nissa era uma estrela cintilante nas areias do Sul. Seu nome era conhecido por toda Chiaroscuro. Nobres choravam ao ouvi-la cantar. Imortais a visitavam disfarçados para ouvi-la ao vivo. Ela era luz. Ela era som. Ela era vida.

Então veio a noite que partiu tudo.

Minutos antes da maior apresentação de sua vida, enquanto estava em seu camarim aquecendo sua voz, ela ouviu a porta se abrindo. Só viu uma figura arremessar um objeto pesado, que rolou até seus pés.

A explosão foi seca e perfeita. Alquímica. O barulho foi fino e constante. Foi o último som que ela escutou na vida. Depois disso foi apenas silêncio.

A cantora acordou em uma cama de hospital, completamente desorientada. Levou um tempo até perceber que não conseguia ouvir nada, nem mesmo seus gritos de desespero. Passou dias apenas chorando e gritando, totalmente em silêncio.

Os médicos não conseguiram recuperar sua audição, nem com métodos mágicos. Era algo que nunca haviam visto.

(O ataque foi arquitetado por um sideral da bronze faction. Ele havia visto que Nissa havia um destino muito conturbado pela frente, que um dos destinos dela estava envolvido com as exaltações solares. O sideral considerou a possibilidade de simplesmente matar a cantora, mas ele viu que isso traria consequências ainda piores. Achou melhor deixa-la surda, acreditando que isso seria o suficiente para impedir que ela alcançasse seu destino preocupante.)

Nissa sumiu da vida pública, não conseguia conviver com o fato de ter perdido tudo que tinha, e sem explicação.

Ela passou a tocar instrumentos só para sentir a vibração nas pontas dos dedos. Sabia que era inútil, mas não conseguia parar. Era como se o som ainda estivesse ali, só que escondido.

Durante anos, Nissa vagou pela parte esquecida de Chiaroscuro — porões inundados, bibliotecas abandonadas, torres quebradas de vidro negro. Evitava a luz, evitava lembranças. Alimentava-se de poeira, solidão e raiva.

Sentia ódio daquele mundo que havia tirado seu dom mais precioso.

Até que um dia, ao entrar em uma câmara esquecida das ruínas da Velha Torre, encontrou algo: **uma partitura, escrita em vidro cinzento e sal, fragmentada como se quebrada em mil pedaços e remontada por mãos cegas **(um fragmento do broken winged crane).

Ela não conseguia ouvi-la, mas ao tocá-la com as mãos — ao sentir o calor das notas gravadas como cicatrizes — entendeu.

Era uma melodia da alma, uma música que não se ouve com os ouvidos, mas com o que resta quando o mundo te nega tudo. Um fragmento da eternidade de Cecelyne, o deserto infinito — a melodia da libertação.

Com olhos frios e dedos determinados, Nissa passou meses estudando e reconstruindo a partitura com instrumentos quebrados, sons inexistentes e ecos que só ela sabia seguir. Quando mais sua ira subia, mais suas notas faziam sentido.

Aquele foi um novo sopro de vida para ela. Sua raiva foi canalizada para provar ao mundo que ela seria maior do que aqueles que a derrubaram.

E então, anunciou:

“Um último concerto. Para os que esqueceram como se sente a liberdade.”

A cidade parou.

Os ventos do sul mudaram de direção.

Milhares se reuniram nas ruínas do antigo Coliseu de Cristal.

Exaltados, espíritos, mortais e fadas vieram.

E entre eles, um Solar Twilight — um jovem erudito, amante das artes, estudioso da música como ponte entre mundos. Ele sempre fora fã de Nissa. Ele foi um dos que tentou cura-la sem sucesso. Esperava há anos pelo prazer de ver um espetáculo novamente.

Quando Nissa subiu ao palco, havia algo de sobrenatural em sua presença. Vestia vermelho escarlate, como se o mundo fosse arder em chamas a qualquer momento. Seu semblante era a mais pura fúria, como se o próprio sol ardesse contra as trevas. Carregava o instrumento cristalino de sua mãe, parcialmente quebrado, assim como ela. Não disse uma palavra, apenas caminhou até o centro do palco e se sentou.

E então, tocou.

O silêncio que vinha com ela explodiu em ondas de ressonância. Uma onda de calor fez todos tremerem. Não havia amplificação, não havia coro. Mas todos ouviram. Cada alma na plateia sentiu a vibração de algo primordial. A música atravessava o som físico e entrava direto na essência. É como se tocasse em cada alma, uma reverberação que fazia com que todos se sentissem mais vivos do que nunca.

Para o solar Twilight, a experiência foi transformadora.

A melodia ressonava com sua exaltação. Ele conseguia **ver **as notas saindo do instrumento e chegando até ele. Como em uma viagem lisérgica em que sua mente estivesse se abrindo para coisas que ele nunca havia pensado, ou até mesmo considerado.

O Solar Twilight não entendeu o que aconteceu naquele momento — mas algo dentro dele mudou. Ele deixou o palco em transe. Começou a ter sonhos de liberdade, de rebelião, busca de propósito e de caminhos fora do destino.

Estava sendo codificado nele uma capacidade de libertar até mesmo os conceitos mais trancafiados e presos.

Ele era uma chave a partir daquele momento. Restava descobrir de qual fechadura.

Nissa desapareceu ao fim da apresentação. Dizem que seu corpo de desfez em areia cristalina e foi assoprado por um vento vindo ninguém sabe de onde.

O importante é que todos estavam eufóricos, suados e com nervos a flor da pele. Já não eram os mesmos de quando entraram no teatro.

(Muitos anos depois o sideral que atacou Nissa percebeu que suas ações levaram Nissa a cumprir seu destino)