Em Sijan, na maior universidade da cidade morava um homem chamado Lurien.

Lurien era conhecido por ser uma enciclopédia ambulante. Nenhum outro estudioso da cidade conhecia tantos rituais de passagem, de purificação, de orientação das almas para o Lethe. Era consultado por pessoas de toda a Criação para que os ritos mais complexos fossem executados nos mínimos detalhes.

Ele não lia livros, ele os devorava. Transcrevia tábuas em ruínas, aprendia dialetos mortos, ouvia as histórias de fantasmas esquecidos há séculos. Sua mente era um abismo de saberes funerários. Mas para ele, nunca era suficiente.

Sua curiosidade foi redirecionada para um novo tema, com uma pergunta inocente, feito por um de seus alunos mais novos. ”Nós sabemos que é possível que uma alma não siga o fluxo de reencarnação. Mas seria possível uma exaltação também não seguir o fluxo de reexaltação?”

A questão o obcecou.

Lurien passou a pesquisar sobre o assunto.

Insaciavelmente.

Porém quanto mais ele buscava, mais percebia o quão pouco havia para saber.

Pesquisas sobre exaltados não eram coisas que mortais tinham muito acesso, sobre a exaltação em si, pior ainda.

Só que a falta de informação, ao invés de freiar sua busca, apenas fazia com que ele ficasse mais sedento. Cada pequeno fragmento de informação era como um gole de água em um deserto. E fazia ele querer mais.

A pesquisa sobre Exaltações revelou-se quase impossível. As Exaltações Celestiais retornavam a Yu-Shan, onde eram cuidadas por Lytek, mas Lurien não tinha como chegar até lá. A ausência de respostas apenas aprofundava sua sede por conhecimento.

Foi então que ficou sabendo de uma entidade muito obscura em uma parte esquecida nas catacumbas. Ninguém sabia direito o que era, mas falava coisas sem sentido, balbuciava sempre sobre uma prisão. Uma prisão de deuses, elementais, nomes, demônios e… exaltações.

Lurien conseguiu encontrar a entidade.

Era uma mulher, com aparência jovem, vendada e com longos cabelos que desciam até seus joelhos. Parecia que ela havia sido amarrada no caixão atrás dela, mas há tanto tempo que as duas coisas haviam se fundido. Se não fosse sua boca se mexendo, poderia ser uma estátua.

Lurien tentou falar com ela, e ela parecia entender que havia alguém ali, mas o que respondia era muito desconexo. Ao mesmo tempo que ela respondia algumas perguntas simples parecia achar que estava em uma guerra, e tinha sido incumbida de encontrar um objeto importante. Um artefato que iria prender seus inimigos.

Havia informação ali, mas claramente não seria fácil de conseguir.

Ele teve que voltar dezenas, centenas de vezes. Tentando interrogar a estátua. Perdeu a conta de quantos pergaminhos escreveu com as falas aleatórias dela.

Tudo valeu a pena.

Semanas de paciência, adivinhação e necromancia Lurien consegui reconstruir parte da informação.

Ele entendeu (mais ou menos) que ela pensava ainda estar viva e que era uma Sideral (dos segredos) e estava lutando na guerra contra os Primordiais. Sua missão era encontrar um artefato em Sijan que poderia prender qualquer coisa, inclusive a alma fetiche de um Primordial.

Ela conseguiu encontrar exatamente onde estava o artefato, mas, quando estava voltando, foi emboscada pelos inimigos. Eles a torturaram, amaldiçoaram, prenderam sua alma ali e a esconderam. A informação nunca chegou ao seu grupo. A guerra acabou e ela foi esquecida.

Agora, com os ânimos renovados, Lurien precisava ir até o artefato.

Porém claramente não era uma coisa que conseguiria fazer sozinho.

Utilizando toda sua rede de contatos e influência entre ocultistas, arqueólogos e necromantes, Lurien conseguiu espalhar rumores cuidadosamente plantados sobre um artefato lendário — uma relíquia da Guerra Primordial, capaz de aprisionar qualquer entidade, até mesmo as mais elevadas.

A história chamou a atenção de uma jovem Twilight, brilhante e ambiciosa, fascinada pela possibilidade de desvendar um poder esquecido dos tempos antigos. Sem saber que estava seguindo as pistas cuidadosamente manipuladas por Lurien, ela reuniu uma expedição: um grupo seleto de jovens Exaltados, estudiosos e guerreiros, acompanhados por quase uma dezena de Dragon-Blooded para protegê-los.

No entanto, as camadas esquecidas de Sijan são mais que apenas túneis — são cicatrizes da Primeira Era, infestadas por defesas antigas, espectros famintos e horrores que não têm nome. A expedição foi, pouco a pouco, despedaçada.

Quando enfim alcançaram as câmaras mais profundas, restavam apenas Lurien e a Twilight. Exaustos, feridos e marcados pelas perdas, mas com os olhos brilhando diante do destino que os aguardava.

A câmara era escura e silenciosa. No centro, suspenso por correntes antigas, estava o Monstrance — um sarcófago feito para conter o impossível. A Twilight parou, alarmada.

— Isso não é um artefato… é uma prisão — sussurrou ela. — Algo vive aqui dentro.

Mas Lurien estava fascinado. Murmurava palavras esquecidas, olhos fixos nas inscrições. Ele se aproximou demais.

— Eu preciso entender. Está tudo aqui… as exaltações… o que nunca deveríamos saber.

A Twilight tentou contê-lo, mas ele rompeu um dos selos. As correntes se agitaram. Uma energia negra tomou o ar.

O Monstrance despertou.

O chão tremeu. Um vórtice se abriu. Ela tentou protegê-los, mas a coisa sabia quem o havia chamado. E queria ambos.

Em segundos, tudo foi consumido: corpos, palavras, luz.

Mas nas paredes, novas inscrições surgiam — como anotações.

Lurien ainda escrevia.

De dentro.