Muito daquilo que já fui e de minhas memórias já foram perdidos na primavera dos tempos. Houve outrora tempos gloriosos de prosperidade e beleza inegualáveis, acima daquilo que a imaginação humana é capaz de sequer intuir. Naqueles tempos, os escolhidos do Sol andavam entre nós e, como faróis, nos iluminavam. Sua resplandecência era tamanha que até os mais humildes e distantes recebiam seu calor e sua luz. Esses tempos são indescritíveis: quanta riqueza, quanta saúde, quanto conhecimento! Até que o pior aconteceu e eles se foram. Aquelas chamas que iluminavam e esquentavam nosso mundo e nossas vidas foram apagadas. E cá estamos agora, totalmente perdidos e na escuridão completa.

É bem conhecida a tendência popular de se exagerar as virtudes e os feitos do passado. Quando se trata dos solares, no entanto, não só não há exagero como as lembranças de suas glórias são insignificantes perante aquilo que eles de fato fizeram. Eu reafirmo que não sou mais aquele que fui outrora, quando recebia a luz e a glória dos solares, e que muito da minha memória foi esquecida. Porém, eu ainda me orgulho de ter surgido como deus de uma cidade solar, que mais tarde se tornou a capital de um grande império. Neste momento você deve estar pensando com qual tipo de império na Criação aquele se compararia. Nenhum. Nem sequer a mesma palavra deveria ser utilizada. Toda a dinastia DB não chega nem aos pés daquilo que foi um império solar. Mas de que adianta tentar convencer alguém disso?

Quando as luzes se apagaram, eu achei que podia resistir. Achei que seria temporário. Fui perseguido, quase morto. Não, muito pior do que morto: antes tivesse perecido sem conhecer esse tempo de escuridão e sofrimento. Eu tive que fugir de meus perseguidores, e procurei os filhos do Sol durante muito tempo, nem sei ao certo quanto. E quando perdi minhas esperanças de encontrá-los, ainda continuei vagando por dezenas de gerações humanas. Eu me tornei apenas uma sombra do que fora antes, agora era um deus errante, louco, esquecido, prestes a desaparecer sem deixar nenhum rastro de qualquer existência prévia.

Por ser um imortal que envelheceu e foi desprezado, eu ganhei um conhecimento da vida humana que é raro entre meu tipo, e esse é o conhecimento do decaimento e da morte. Aqueles que são jovens sempre veem sua vida como um progresso, pois sempre há algo por vir. Isso se inverte na velhice, quando a perda daquilo que era, para a pessoa, o centro de sua vida, a leva a ficar cada dia mais distante daqueles momentos nos quais foi feliz. O auge já se foi. A família já se desmenbrou. Grande parte daqueles que ela mais ama já partiram. Aquilo que ainda sobra se desfaz dia após dia. Então a morte já não parece tão terrível, é, com frequência, almejada.

E quando eu me afastava da vida e da Criação, caminhando a cada dia em direção à morte, eu me encontrei em um vilarejo abatido pela desgraça e pela peste. Até esse momento, nem me dava conta que alguma compaixão ainda restava em minha alma morta, porém eu senti por eles e usei de meus poderes e de meus conhecimentos em medicina para curá-los. Talvez porque foi uma das solares que me ensinou como curar e usar as ervas, e eu me lembrava dela ao fazer isso, embora nem consiga relembrar seu rosto, posso me lembrar do meu sentimento por ela. Enfim, não importa o porquê, eu os ajudei. E logo comecei a ser cultuado por esses miseráveis, que apesar de não terem comida nem suprimentos em abundância, ergueram uma estátua para mim, na qual depositavam oferendas, e depois um templo.

Eu me deixei ficar e ser adorado em consolo a esses coitados, mas eis que fui consolado e agradado também. A diferença da vida que levo hoje com aquela que tive nos tempo de glória da Criação é maior que a distância de um mendigo para um rei. Porém, eu descobri que ainda assim podia sentir prazer nela. Logo aquele vilarejo cresceu e se tornou uma cidadezinha, e me vi deus de cidade novamente. Yamato é minha nova cidade. Por ser um deus envelhecido, alguma parte de mim influenciou meu povo de forma deletéria, e aqui surgiu um culto aos mortos e a fantasmas. Mas isso não importa mais. Ao decidir ficar e me contentar com essa vida, e até gostar dela, o destino me sorriu mais uma vez, e agora voltei a ter a honra e a oportunidade de ser iluminado novamente.

Tivemos tempos difíceis por volta de duas décadas atrás. Houve uma nova peste que levou muitos de nossos jovens. Até o jovem príncipe sucumbiu. A rainha de nossa cidade, Hannah, não desistiu e fez de tudo para salvar o povo, até trazer médicos e remédios do exterior. Um dia ela presidia um culto na praça principal, no qual pedia aos céus que nos poupassem, e então tudo ficou nebuloso. Ninguém sabe precisamente o que aconteceu, e aqueles que se lembram se contradizem. Vou lhes contar a versão mais aceita. No meio das preces, ao queimar das oferendas, desceu à praça aquela que é chamada aqui de “filha dos céus”, uma criatura de beleza incomparável e com olhos brilhantes que pareciam duas estrelas, embora sua descrição varie muito, e alguns ainda afirmam que se tratava de um homem. O que importa é que a filha dos céus anunciou que havíamos sido ouvidos e que nos confiaria uma criança, cujo destino estaria entrelaçado ao nosso, podendo se tornar nossa salvação. Porém, se a perdéssemos seria a nossa ruína.

Essa criança foi imediatamente adotada pela Rainha Hannah e passou a ser idolatrada pelo povo. Eu desconfiei, mas não havia o que podia fazer. A crença na criança se alastrou com mais força que qualquer peste no meio desses pobres coitados. Eu temi pelo povo e, confesso, por perder meu lugar. A criança, então, cresceu mimada e protegida de todas as formas. Por acreditarem que ela era divina, muito foi investido em sua educação. Ela demonstrava grande aptidão em tudo, estava sempre em primeiro lugar.

Aqui em Yamato há o costume do jovem, ao completar 14 anos, realizar uma cerimônia que marca sua passagem para a vida adulta. Essa cerimônia é reservada à família e eu sempre participo. Por ser adotada pela rainha, nessa cerimônia, a jovem Amaterasu recebeu também o título de princesa herdeira e, ao completar a cerimônia, no momento em que os jovens pedem minha benção e condução na sua vida adulta, ela exaltou. Fui, então, eu quem me ajoelhei diante dela e pedi que me guiasse, mas ela me fez levantar e pediu para que eu não rompesse com a tradição. Então a cerimônia continuou. Desse momento em diante, eu passei a fazer de tudo para guiar Amaterasu em seu caminho. Foi então que entendi o porquê de não ter morrido, a razão de ter me estabelecido aqui, e pude agradecer por minha vida. Finalmente entendi que, mesmo o mais rigoroso dos invernos, é seguido pela primavera.

Izanagi, o deus-velho, deus de Yamato

Yamato – descrição da cidade

Yamato é uma cidade ligada à tradição, onde se valoriza família, culto aos ancestrais e cerimônias religiosas. Os idosos são valorizados, inclusive os jovens se vestem e se comportam de modo a parecer mais velhos. A comunidade é agrária e tem conhecimento de ervas, tanto de usos medicinais como recreativos. Assim, seus principais produtos comerciais são agrícolas, plantas medicinais e drogas.

O deus de Yamato se chama Izanagi e assume uma forma de ancião. Ele adora contar histórias e ensinar o uso das ervas. Ele costuma aparecer em rodas formadas em volta da fogueira para fumar, jogar gamão e dar conselhos. Alguns dos itens mais ofertados a ele são cigarros e uma boa história. Ele também é conhecido pelos nomes “deus-velho” e “honorável avô”.

A Rainha Hannah tem cerca de 50 anos e perdeu seu marido e filho em uma peste que atingiu a cidade há 18 anos atrás. Ela também é bastante ligada à tradição. Logo depois, ela adotou a princesa Amaterasu, hoje com 17 anos.

As famílias costumam ter culto aos ancestrais e há 3 fantasmas maiores adorados como ancestrais de várias famílias: Oda (mulher), Sato (homem, o fundador da cidade) e Miura (mulher guerreira). Eles aparecem todos os anos na festa de aniversário de Yamato.

Amaterasu

O povo de Yamato acredita que a princesa Amaterasu foi um presente dos deuses dado à cidade, e também a cultuam como um ser divino. Ela teve o máximo de educação possível naquele pequeno vilarejo. Ao exaltar, o deus da cidade passou a ser seu tutor. Sua exaltação ainda não é conhecida do público. Como ela foi criada como um presente divino, ela acredita ser especial e ter um papel importante no destino de Yamato.

No dia de sua exaltação, na cerimônia que marcava o início de sua vida adulta, ela fez a promessa para si mesma de acabar com a escravidão e com a tirania na região.

Amaterasu exaltou como uma solar da casta eclipse.